ONGS
E MOVIMENTOS SOCIAIS: A QUESTÃO DE NOVOS SUJEITOS POLÍTICOS PARA A
SUSTENTABILIDADE
(Publicado
em Meio Ambiente: questões conceituais. Niterói, UFF/PGCA-Riocor, 2000,
pp. 123 –155)
Selene
C. Herculano[1]
(clique aqui para ver a capa do livro)
Introdução
As
Organizações Não-Governamentais – ONGs - e os Movimentos Sociais têm se
apresentado no cenário brasileiro como alternativas de exercício de cidadania e
como atores políticos necessários para se alcançar o desenvolvimento
sustentável, aquele que promoveria a um só tempo justiça social e equilíbrio
ambiental. Sendo organizações movidas pelo interesse público e sem fins
lucrativos, ONGs e Movimentos representam um lado da Sociedade Civil que está
em contraposição ao mundo da produção que, de mãos dadas com o Estado, tem sido
protagonista até aqui de um crescimento econômico desigual, socialmente injusto
e degradador do meio ambiente.
Focalizaremos
neste artigo a origem e os diferentes significados socialmente construídos,
relativos a estes dois conceitos centrais ao estudo do associativismo: “ONGs
(organizações não-governamentais)” e “Movimentos Sociais”, no que diz respeito
à temática do meio ambiente e ao papel que nele têm buscado desempenhar, o do
exercício diferenciado de uma cidadania ampliada.
Quem
transita entre os ambientalistas e outros ativistas sociais (movimentos de
moradores, de mulheres, de etnias, etc.), ouve-os ora se auto-referirem como
"ONGs" (organizações
não-governamentais), ora como "movimentos". De onde surgiram e o que significam tais termos? Há diferenças
entre um e outro? Quais? Que implicações tais diferenças trariam em termos de
ações de cidadania? Como pensar sua relação com o Estado e as parcerias que
começam a surgir?
Embora o campo ambientalista incorpore também o oficial -
que é formado no Brasil pelos organismos estatais de meio ambiente que integram
o Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA) – além do ambientalismo civil,
formado por associações voluntárias diversificadas e com diferentes graus de
organicidade, este artigo versará apenas sobre o campo da sociedade civil,
integrado por diferentes tipos de organizações:
1) um associativismo de cidadãos,
que engloba desde as associações ambientalistas strictu sensu, sejam elas conservacionistas ou preservacionistas,
em defesa de florestas, áreas verdes, animais e ecossistemas, incluindo também
as associações de excursionistas, de amantes da natureza, etc., até as
associações de moradores que reivindicam qualidade de vida urbana. Enquanto nos
Estados Unidos e em outros países este associativismo é pujante, ligando
centenas de milhares de pessoas (em alguns casos, milhões) a cada associação e
movimentando milhões de dólares, no
Brasil as associações ambientalistas costumam ser pequenas (na casa das poucas
dezenas de filiados), com baixo grau de organicidade ou apenas mínimamente
formais (têm estatutos, mas não têm recursos financeiros nem sede, vivenciando
ainda uma situação de precariedade de equipamentos fundamentais de comunicação
- telefone, fax, computador – e funcionando em escolas, clubes, universidades,
às custas de equipamentos e material particulares, cedidos pela diretoria
militante, diretoria ou coordenadoria, frequentemente mais extensa que o número
de seus ativistas filiados). Ou então
são totalmente informais e fluidas, constituídas por grupos de alunos e grupos
de vizinhança, que surgem engrossando manifestações públicas episódicas e
pontuais.
2)
Os institutos e fundações, com mais organicidade, são formados
por profissionais predominantemente apoiados política e financeiramente por outros
institutos e fundações de âmbito
internacional; podem ser formal ou informalmente ligados a partidos
políticos ou a igrejas, a federações sindicais, estar em simbiose com gabinetes
parlamentares nacionais, ou serem fundados por profissionais egressos de
organismos de governo. Têm uma ação pedagógica, atuando como assessoria à
cidadania e como instrumentos de pressão, firmando-se como interlocutores
competentes diante do Estado e da imprensa, em favor de políticas públicas
diretamente ambientalistas ou em consonância com políticas ambientalistas. Exemplos: Funatura, Fundação Onda Azul,
Fundação SOS Mata Atlântica, Instituto Sócio-Ambiental, e ONGs de assessoria a
movimentos populares, tais como ISER, FASE, IBASE, etc.
3) Outros movimentos sociais sintonizados
com a temática ambientalista, quase sempre de mais alta organicidade e
institucionalidade. No caso brasileiro, podemos citar como interfaces sociais do ambientalismo as seguintes entidades:
o Conselho Nacional dos Seringueiros, cuja defesa do extrativismo da borracha e
da castanha se harmoniza com a defesa da Floresta Amazônica, ou o Movimento
Nacional dos Atingidos por Barragens, que, ao questionar o Plano Hidrelétrico
Brasileiro, construiu uma agenda com pontos em comum com a agenda dos ambientalistas,
inclusive nas críticas às irracionalidades do modelo de desenvolvimento que vem
nos (des)orientando. E ainda movimentos
mais institucionalizados, como o indígena, o negro e de mulheres, que
invocam a cultura silvícola, a essência da natureza feminina e da religiosidade
negra como evidências da convergência natural destes atores sociais com as
políticas ambientalistas.
A
construção das identidades dos ambientalistas como ONGs ou como associações
e/ou movimentos guarda traços de ambiguidade. Entre os norte-americanos e os
europeus, por exemplo, os três tipos acima são definidos como “ONGs”,
indistintamente. No Brasil, as entidades que se encaixam no perfil da segunda
categoria se autodefinem como ONGs, chamando aos demais de “movimentos”. O
critério divisor é o da competência e da institucionalidade. Todavia, os
cidadãos associados, não importa se poucos e se informais, buscam também se
definirem como “ONGs”, assim disputando espaços de influência e também de
parcerias com os órgãos de Estado, implicitamente recusando tal critério
divisor.
Tentaremos
esclarecer a ambiguidade do termo “ONGs” analisando seus três significados.
ONGs podem ser:
1) Entidades do Primeiro Mundo, que
captam recursos para o Terceiro, viabilizando políticas de solidariedade. São
as ECF (entidades internacionais de co-financiamento), que buscam carrear
recursos para a execução de programas de ação do Terceiro Mundo. São às vezes
apodadas, não sem certa mordacidade, como Trangos
(ONGs transnacionais), Quongos (quase
ONGs) ou Bingos (big, grandes ONGs).
2) Institutos e fundações do Terceiro
Mundo, que recebem tais recursos da rede de solidariedade das ONGs do primeiro
Mundo, e que buscam o desenvolvimento social, a animação e organização de atores políticos coletivos. Seriam as
APDs ou SMPs (associações privadas de desenvolvimento ou a serviço do movimento
popular).
3) As associações civís de cidadãos independentes, em torno
de questões de interesse público.
ONGs:
o conceito e sua história As conferências da ONU e sua divulgação pela
imprensa consagraram no mundo todo as ONGs - organizações
não-governamentais - e seus fóruns
internacionais de cidadãos, fazendo contraponto e crítica à fala oficial dos
governos. O próprio mundo das ONGs tem
produzido uma literatura dedicada a
definir seus próprios contornos, características, objetivos e estratégias.
Assim é que, dentre outros, Fernandes (1994) e a Civicus (1995)[2] tratam da emergência de uma Sociedade
Civil a qual denominam como um Terceiro Setor, algo que nem é o Estado,
nem é o mercado: é um setor privado mas público, formado por institutos,
associações, fundações e filantropias empresariais, cujo motor comum é o
interesse público e a construção do bem comum e cuja organização almejaria a
construção de uma "sociedade civil planetária", transnacional.
Na retórica das ONGs/APDs brasileiras, este
Terceiro Setor referia-se inicialmente
a uma Sociedade Civil marcada predominantemente pelo confronto e pela oposição
ao Estado. Assim Betinho (o sociólogo
Herbert de Souza,fundador da ONG Ibase) acentuava a oposição entre a planície - a sociedade civil, o povo
- e o
planalto[3], o governo: haveria um mundo pujante,
dinâmico e transformador, que seria o mundo da planície, da Sociedade Civil, a
se contrapor ao Estado, o mundo oficial, ao planalto, pesado, paquidérmico e
perigoso:
"Enquanto o governo federal tenta destruir o Brasil e a democracia por
cima, a sociedade reconstrói pela base, ocupando os espaços sociais, políticos,
econômicos e culturais das cidades, onde afinal vive e mora todo mundo".
(Herbert de Souza, Publicação CEBEP, mar/abr 92)[4]
"A luta pela democracia, porém, continuou pela Nova
Constituição, o Movimento pela Ética na Política, o impeachment, a CPI da
Corrupção, a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. O
fundamental foi que tudo isso aconteceu por pressão da sociedade, da planície.
No poder ainda mora o perigo. Na planície é que cresce e se consolida a
democracia, essa que muda o rumo das coisas, que tenta enterrar a senzala e
libertar definitivamente os escravos de nossa cultura, de nossa economia e da
política." (Souza,
1994)[5]
Neste
tipo de retórica, o Estado se confunde com o governo, algo assemelhado à
máquina parasitária bonapartista criticada por Marx, enquanto a sociedade, por
oposição, é algo local, portanto não apenas mais concreto, mas melhor, por
tender essencialmente a ser mais democrática:
As
ONGs, tanto quanto os Movimentos Sociais são também auto-definidos como
"espaços públicos por fora da esfera do
Estado, responsáveis pela instituição de novos valores, normas e padrões de
comportamento que questionam profundamente o atual modelo de
desenvolvimento" e que por isso "são hoje, talvez, os atores
potencialmente mais capazes de romper com a lógica individualista e
predatória". (Fórum
das ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, 1992)
Mas,
o que são exatamente as ONGs? Qual a sua história? O que é e o que não é ONG?
Vejamos a seguir a construção do seu significado no contexto internacional,
onde foram gestadas, e no contexto nacional.
No
contexto brasileiro, foi a partir da UNCED/CNUMAD[6] e suas conferências paralelas,
organizadas estas últimas por iniciativas da sociedade civil e das "ONGs,
que a sigla começou a se popularizar entre nós, passando a ser, atualmente, uma
palavra cotidiana e corriqueira na nossa imprensa.
Assim,
as ONGs surgiram no contexto internacional: o termo "ONG - organizações
não-governamentais" - vem do vocabulário da ONU (a Ata de Constituição da
ONU o menciona em seu artigo 71, ao estabelecer que seu Conselho Econômico
Social - ECOSOC - poderia fazer acordos adequados de consultoria com organizações não-governamentais). É,
segundo Castillo (1982), um conceito
genérico, que pode se referir a centros de pesquisa, partidos, organizações
sindicais, igrejas, associações profissionais, universidades, órgãos de setores
populares, entidades de cooperação financeira internacionais ou localizadas no
terceiro mundo e dedicadas específicamente a promover e realizar projetos de desenvolvimento.
"Uma definição tão ampla incluiria
até mesmo a Ku-Klux-Klan", criticou o Ministro do Exterior holandês,
em 1979. O termo ONG foi definido como "a
broad umbrella for a kaleidoscopic collection of organizations" e também como "um novo profissionalismo".
(Cernea, 1988)
Trangos, Quongos e Bingos
Para
Nerfin, "há ONGs e ONGs", isto é, há as que servem verdadeiramente à
causa da emancipação popular, bem como há aquelas que estão contentes em fazer
parte do sistema de implementação de um desenvolvimento que não é questionado,
que querem é "sua ração no caldeirão
das verbas" e que têm práticas que misturam "paternalismo, subserviência e corrupção à humilhação e mentiras para
sua autopreservação". Segundo Nerfin (1991), haveria cerca de 12.000
ONGs ligadas ao sistema das Nações Unidas. As ONGs do ECOSOC da ONU são
descritas pelo autor como um "saco de gatos", obsoletas e
improdutivas; as do Departamento de Informação Pública, também da ONU (336,
segundo dados citados por Castillo para 1980) são definidas por Nerfin como
"correia de transmissão da cultura intergovernamental, que é destilada de
cima para uma opinião pública vista como um receptor passivo ou como algo a ser
mobilizado".
As ONGs de cooperação para o desenvolvimento
surgiram a partir da criação do PNUD
(Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas): são as ONGs do Norte, TRANGOs,
segundo o autor, pois são transnacionais que lidam com um fluxo de ajuda
Norte-Sul da ordem de bilhões de dólares. Segundo Cernea, do Banco Mundial, a
ajuda das ONGs para o dito Terceiro Mundo havia aumentado de 0,9 bilhões de
dólares em 1970 para 1,4 bilhões em 1975 e 4 bilhões em 1985; segundo Assumpção
(1993:9), entre 1960 e 1980 houve um aumento de 68% na ajuda externa para o
terceiro mundo, através de agências não-governamentais de países europeus, do
Canadá e dos Estados Unidos: de 2,8 bilhões para 4,7 bilhões de dólares (dólar
de 1986); segundo Nerfin, a ODA - Official Development Assistance - teria
totalizado 55 US$ bilhões para o biênio
1988-89[7]. São recursos que, observa Nerfin,
acabam retornando aos doadores na forma de custo de especialistas, pagamento de
produtos, serviços, estudos, etc.
Segundo Onorati (1991), há ONGs européias, que ele
define como "quase ONGs" -
QUONGs - que foram criadas por instituições tais como as Igrejas, os partidos
políticos e as centrais sindicais, para movimentar as cotas mais relevantes da
ajuda pública para o desenvolvimento, proveniente dos governos e que saem dos
impostos dos cidadãos. Há as BINGOs (big ONGs), com orçamentos de centenas de milhões de dólares, com ligação
direta com bancos, governos e mass media, com uma visão assistencialista e uma
ação de sustentáculo dos grandes partidos políticos europeus. Há ainda, na
tradição cultural de países europeus, o sistema de fund raising para
fins de caridade. Onorati denuncia, sem citar exemplos, as vantagens desta
cooperação do norte com o sul, que, nos dois hemisférios, acaba por beneficiar
camadas restritas, minoritárias e parasitárias, reforçando os instrumentos de
acumulação e de controle.
Em
1960 foi assinada a convenção de criação da OECD (Organization for Economic
Cooperation and Development), que se efetivou a 30/9/61, para promover
políticas de garantia de crescimento econômico e crescente elevação de padrão
de vida aos seus membros (de início 20 signatários). Em torno dela várias ONGs
surgiram e outras a ela se vincularam: o Catálogo da OECD para 1991 arrolava
457 ONGs, dedicadas a linhas de solidariedade: pão para o mundo, médicos,
engenheiros e veterinários sem fronteiras, centros de educação sanitária, de
tecnologias agrícolas, de rede de água, redes e centros de desenvolvimento,
auxílio a idosos, a crianças, pelo desenvolvimento das mulheres, de alívio à
pobreza, associações cristãs de solidariedade, sem teto, centros de apoio à
África, etc. As ONGs para o meio ambiente começaram a aparecer a partir da
segunda década de 80, predominantemente.)
Algumas das mais antigas e mais ricas das ONGs ambientalistas que constam desde catálogo da OECD são:
|
Organizações |
Ano
de criação |
País |
Orçamento
em US$, 1990 |
|
World Wildlife Federation - WWF |
1951 |
Suíça |
60 milhões |
|
Audubon Society |
1905 |
EUA |
44 milhões |
|
The World Conservation Union - IUCN |
1948 |
Suíça |
33 milhões |
|
World Wide Fund for Nature |
1963 |
Austria |
2 milhões e 638 mil |
|
Amici dello Stato Brasiliano dell’
Espirito Santo |
1966 |
Itália |
2 milhões e 514 mil |
|
World Nature Association |
1969 |
EUA |
2 milhões |
|
Rainforest Action Network |
1985 |
EUA |
1 milhão, 150 mil |
|
Africa 70 |
197I |
Itália |
1milhão e 879 mil |
|
Center for Our Common Future - COCF |
1988 |
Suíça |
1.296 mil |
|
Royal Forest and Bird Protection of
New Zeland |
1923 |
Nova Zelândia |
894 mil |
|
Amis de la Terre |
1970 |
FR |
367 mil |
|
Common Wealth Human Ecology Council |
1969 |
UK |
85 mil |
Fonte: Directory of Non-Governmental
Environment and Development Organisations in OECD Members Coubntries. Geneve,
OECD, 1992.
Os Estados Unidos arrolam, como suas maiores ONGs ambientalistas as que se seguem no quadro abaixo:
|
ONGS LOBISTAS, que atuam no Congresso, por
políticas ambientais |
ANO DE FUNDAÇÃO |
ASSOCIADOS EM 1960 |
ASSOCIADOS EM 1990 |
ORÇAMENTO EM 1990
(milhões US$) |
|
Sierra Club |
1892 |
15.000 |
560.000 |
35,2 |
|
National Audubon
Society |
1905 |
32.000 |
600.000 |
35,0 |
|
National Parks
& Conservation Association |
1919 |
15.000 |
100.000 |
3,4 |
|
Izaak WaltonLeague |
1922 |
51.000 |
50.000 |
1,4 |
|
The Wilderness
Society |
1935 |
10.000 |
370.000 |
17,3 |
|
National Wildlife
Federation |
1936 |
- |
975.000 |
87,2 |
|
Defenders of
Wildlife |
1947 |
- |
80.000 |
4,6 |
|
Environmental
Defense Fund |
1967 |
- |
150.000 |
12,9 |
|
Friends of the
Earth |
1969 |
- |
30.000 |
3,1 |
|
Natural Resources
Defense Council |
1970 |
- |
168.000 |
16,0 |
|
Environmental
Action |
1970 |
- |
20.000 |
1,2 |
|
Environmental
Policy Institute |
1972 |
s.a. |
s.a. |
1,2 |
|
Total: 12 |
|
123.000 |
3.103.000 |
217,3 |
Fonte: Mitchell, Mertig e Dunlap, 1992
e
|
ONGs NÃO-LOBISTAS, de ação direta e construção de
apoio mútuo |
ANO DE FUNDAÇÃO |
ASSOCIADOS EM 1990 |
ORÇAMENTO EM
1990(MILHÕES DE US$) |
|
De Ação Direta: |
|
|
|
|
Greenpeace USA |
1971 |
2.300.000 |
50,2 |
|
Sea Shepherd
Conservation Society |
1977 |
15.000 |
0,5 |
|
Earth First! |
1980 |
15.000 |
0,2 |
|
Preservacionistas: |
|
|
|
|
Nature Conservancy |
1951 |
600.000 |
156,1 |
|
World Wildlife Fund |
1961 |
940.000 |
35,5 |
|
Rainforest Action
Network |
1985 |
30.000 |
0,9 |
|
Rainforest Alliance |
1986 |
18.000 |
0,8 |
|
Conservation
International |
1987 |
55.000 |
4,6 |
|
Contra Dejetos Tóxicos |
|
|
|
|
Citizen's
Clearinghouse for Hazardous Waste |
1981 |
7.000 |
0,7 |
|
National Toxics
Campaign* |
1984 |
100.000 |
1,5 |
|
League of
Conservation Voters |
1970 |
55.000 |
1,4 |
|
Sierra Club Defense
Fund |
1971 |
120.000 |
6,7 |
|
Earth Island
Institute |
1982 |
32.000 |
1,1 |
|
Total: 13 |
|
4.287.000 |
260,2 |
Fonte: Mitchell, Mertig e Dunlap, 1992
(apud Gifford, 1990)
As
ONGS do Terceiro Mundo: APDs, CDs, SMPs; as ONGS/ SMP no Brasil
As ONGs do Terceiro Mundo, recebedoras dos
recursos das Trangos, Quongos e Bingos, foram definidas por Castillo como APDs - associações privadas de
desenvolvimento - entidades genéricas que na América Latina se denominaram "centros de desenvolvimento",
na África "entidades de
animação" e na Ásia "organizações
voluntárias". Landim, para sublinhar sua especificidade e sua
diferença em relação às ONGs em geral (Trangos, Quongos e Bingos), as denomina
por SMP, "a serviço do movimento popular".
Estas
ONGs/APDs ou SMP caracterizar-se-iam por serem entidades não-públicas; por
atuarem dentro dos marcos do sistema, contando com personalidade jurídica e
reconhecimento legal; por não terem fins lucrativos; por terem atividades
orientadas em favor do desenvolvimento participativo e em benefício de pessoas
e grupos distintos dos seus próprios membros. Buscariam melhorar as condições de vida dos setores
populares, a satisfação de suas necessidades básicas ou, mais além, a
transformação total das estruturas econômicas e sociais existentes.
"As ONGs que entram no campo do
desenvolvimento, elas se marcam no sentido de dizer: 'nós não queremos emendar,
queremos criar condições para o desenvolvimento'... A grande época em que tudo
isso toma forma e consistência é nos anos 60, a grande época do
desenvolvimentismo, quando se constituíram uma série de ONGs no Norte, de
financiamento. Têm também instâncias ecumênicas, como o Conselho Mundial de
Igrejas, que articula boa parte das igrejas do mundo inteiro... O
desenvolvimento teria que passar através dos povos, teria que valorizar a
participação dos povos, teria que ter um grau de autonomia muito grande. Era
claro o distanciamento dessas entidades de base dos grandes projetos públicos
de desenvolvimento... No começo, foi essa crença um pouco ingênua no
desenvolvimentismo, de que o que faltava no Terceiro Mundo eram quadros
técnicos, profissionais e recursos financeiros. Teve um sentido de apoio, de ir
às causas e as causas eram vistas como falta de educação, de instrumentos par
viabilizar a agricultura, recursos. Nesse sentido, não foi um assistencialismo.
Esse mundo das ONGs não partiu de um
pensamento comum: partiu de realidades múltiplas, diversas; o que têm em comum
é a idéia de um serviço, de ajudar o surgimento dos movimentos. Essas agências
não queriam dar dinheiro para comprar alimentação, mas ensinar o povo a
produzir melhor. Havia por parte dos militantes um projeto de Terceiromundismo,
de solidariedade internacional, uma terceira via, talvez". (J.P. Leroy,
FASE, em entrevista à autora em janeiro de 1992).
Landim
(1988) definiu este mundo como formado por "entidades que se apresentam como estando a serviço de determinados
movimentos sociais de camadas da população oprimidas ou exploradas ou
excluídas, dentro de perspectivas de transformação social". Mais do que não-governamentais, essas
entidades foram por ela definidas como "anti-governamentais". Em sua
listagem encontrou, em 1988, para o Brasil, 1041 organismos, onde incluiu tanto
as organizações de assessoria a serviço dos movimentos populares (SMP) quanto
os próprios movimentos e grupos mais informais.[8] Para a autora, o mundo das ONGs é
característicamente transnacional e seu objetivo é a busca de espaço de
cidadania e o desenvolvimento. Existiria, ainda, uma "gente das ONGs", que "constrói textos, laços e
idéias de forma capilar e cujo papel seria o de ser o 'novo intelectual',
'comprometido', 'a serviço', em oposição ao 'intelectual acadêmico'".
Segundo Fernandes (in Landim, 1988) as ONGs do Terceiro Mundo remontam aos anos 50 e
apresentaram notável proliferação no Brasil na década de 1970; seus membros
provém das elçites intelectuais, com origens nas universidades, igrejas,
partidos e/ou organizações de militância de esquerda que tiveram "laços mútuos de relacionamento"
baseados em "experiências passadas
comuns", sendo uma alternativa ao "isolamento
da academia". Para o autor, "os
quadros das ONGs são membros das elites e não perdem a sua familiaridade com as
transações de alto nível". Nas relações entre Estado e Sociedade
Civil, as ONGs preferiram dar as costas
ao Estado e atentar para os poderes difusos que circulam nas bases da
sociedade, em algo que lembra ao autor o populismo russo em seu mote "vamos ao povo". (In Landim,
1988:11)
Neste
sentido, as ONGs a serviço do movimento popular são assim definidas:
"organizações
privadas não-empresariais, dedicadas à ação social no espaço público, em
benefício de camadas excluídas da população". (Assumpção,1993)
ou
"canais
de articulação das classes médias na esfera pública, exercendo funções de
tradução e de rearticulação dos interesses e demandas dos setores populares nas
arenas institucionais de confronto e negociações sociais."
(Oliveira Neto 1991:151, apud Assumpção)
As
ONGs aproximariam teoria e prática, integrando intelectuais aos movimentos
sociais, promovendo participação popular no sentido de consolidar a sociedade
civil. Fernandes as define como "pequenos barcos no oceano social"
e "pequenas ilhas que se querem
anunciadoras de um mundo melhor" (in Landim, 1988). Quanto ao seu
estilo de pensamento, seriam, segundo ele, "anarco-socialistas-liberais-conservadoras"
e manteriam suas características básicas - a autonomia e o
anti-institucionalismo - ao mesmo tempo em que se fortaleceriam através da
existência de redes. Financiadas por agências estrangeiras, não formariam um
campo de paz idílica e sim um campo rico de tensões difusas.
Elas seriam
"microorganismos do processo
democrático" (Souza,
1992:143), "espécie de
aparelhos para vocações políticas individuais, onde se manteria acesa a chama
da resistência, além de ser uma fonte de emprego, e onde o não fazer nome era
uma qualidade cultivada" (Assumpção, 1993: 3-4). Segundo Souza
(Betinho), as ONGs se definem pelo que não são: "não são Estado, Não
são mercado nem instituições clássicas do mundo religioso, acadêmico ou
político". Foram uma "espécie de espaço alternativo para a
militância política", "em oposição ao Estado e de costas para
o mercado". Buscando "democratizar o mercado",
submetendo-o ao controle democrático da sociedade, e "democratizar o
Estado, desprivatizando-o e restabelecendo seu caráter público", as
ONGs são definidas pelo sociólogo como "instituições genéticamente
anti-capitalistas"que recebem verbas do próprio Estado e/ou de
fundações internacionais.[9]
No
Brasil, as ONGs/SMP, de assessoria,
tanto quanto os Movimentos Sociais, nasceram
com uma posição reativa e crítica em relação ao Estado, identificando-o
ao poder executivo federal na sua roupagem autoritária e ditatorial. Há
justificativas históricas para tal viés anti-estatista, que acabou
contaminando a perspectiva teórica a
respeito da relação Estado-Sociedade Civil, suas identidades e papéis, em uma
perspectiva de traços maniqueístas, ou seja, de um lado o mau Estado, do outro,
as boas ONGs representando a Sociedade Civil. ONGs e Movimentos Sociais têm
construído um campo, o da Sociedade
Civil, no qual se auto-definem como figuras ilibadas, idealistas, competentes,
frente a um Estado corrupto e incompetente.
" As ONGs são simplesmente atores
sociais da sociedade civil, entre outros, trabalhando pela construção de
sociedades democráticas, ou simplesmente sofrendo com a sua ausência... O campo
das ONGs é a dimensão social do desenvolvimento (....) As ONGs brasileiras, em
sua grande maioria, nasceram em função e em consequência da luta política da
sociedade civil contra o regime autoritário que se implantou para servir ao
grande capital, em 1964. Nascem contra o Estado e de costas ou à margem do
mercado...A maioria das ONGs brasileiras nasce entre as décadas de 60 e 80 e se
caracteriza por uma existência quase clandestina, ligada aos movimentos sociais
de base, às Igrejas, aos movimentos sindicais e populares, executando tarefas
fundamentalmente nas áreas de educação, saúde, habitação e consultoria a esses
movimentos chamados 'populares' (leia-se sociedade civil pobre e reprimida)
...Vivem e sobrevivem graças à solidariedade internacional (a chamada
cooperação internacional ao desenvolvimento), que chega através das ONGs do
Norte que, por sua vez, repassam recursos, mobilizadas por razões humanitárias
e de seus governos pressionados por
sentimentos de culpa de quem se enriquece graças à desigualdade
internacional...As ONGs brasileiras se desenvolveram, portanto, contra o
Estado... mas não querem sua eliminação (pelo menos por agora), mas sua
transformação, sua democratização...As ONGs brasileiras também não se sentem
bem em sua relação com o mercado, em
razão de seu caráter excludente, individualista, insensível aos argumentos
democráticos e humanitários que devem iluminar a construção de uma nova
sociedade...O Banco Mundial descobriu as ONGs. Elas eram honestas,
competentes, pequenas, flexíveis e eficientes. Tinham todas as vantagens para
substituir o Estado corrupto, incompetente, gigante, burocrático e
ineficiente...O papel das ONGs na década de 90 é pura e simplesmente propor à
sociedade brasileira, a partir de sua posição na sociedade civil, uma nova
sociedade cuja novidade estará... na condição e qualidade universal de ser
democrática...Definir e propor essa qualidade é o desafio específico, não
exclusivo, que as ONgs devem responder para fazer jus à sua própria
existência...Não basta não ter os vícios do Estado e do mercado, é
necessário agora demonstrar para que servem as nossas idéias e virtudes. (Souza,
Herbert, 1991) (destaques meus)
Arruda
analisou a interação e colaboração entre ONGs e Banco Mundial como uma
conquista da pressão destas pela publicização e democratização das atividades
das instituições multilaterais. Esta pressão se configurou a partir de 1984,
quando se instituiu o GTONG – Grupo de Trabalho das ONGs sobre o Banco Mundial,
a partir da decisão das ONGs membros do Comitê de ONGs do Banco Mundial de
terem um perfil próprio. Assim, as ONGs chamaram a si um papel advocatício,
agindo como um canal, oferecendo acesso às informações do Banco Mundial e
transmitindo informações e análises em favor dos necessitados (ARRUDA, 1995:37)
Dentre as cerca
de quatrocentas ONGs/SMP brasileiras, destacamos:
FASE: Federação de Órgãos para a
Assistência Social e Educacional, RJ, 1961
ISER - Instituto de Estudos da
Religião, RJ, 1970
IBASE - Instituto Brasileiro de
Análises Sociais e Econômicas, RJ, 1979
INESC: Instituto de Estudos
Sócio-Econômicos, Brasília, 1979
CEDAC: Centro de Ação Comunitária, RJ,
1979
CECIP: Centro de Criação de Imagem
Popular, RJ, 1987
IDACO: Instituto de Desenvolvimento e
Ação Comunitária; RJ, criado em 1988
Enquanto
as ONGs a serviço do movimento popular (ONGs/SMP) têm alta organicidade, o
movimento ambientalista nacional, embora internamente diversificado, tende a
ter um outro perfil. Listamos a seguir algumas organizações ambientalistas
brasileiras de mais antiguidade e mais projeção política, com atuação em âmbito
nacional:
Entidades
ambientalistas brasileiras fundadas entre 1970-1985
|
CECNA - Centro de Estudos e
Conservação da Natureza |
RJ |
1970 |
|
FAMA - Federação das Associações
Ambientalistas |
RJ |
1971 |
|
AGAPAN - Associação Gaúcha de
Proteção ao Ambiente Natural |
RS |
1971 |
|
CDN - Campanha em Defesa da Natureza |
RJ |
1972 |
|
ACAPRENA - Associação Catarinense de
Preservação da Natureza |
SC |
1973 |
|
CNFCN - Centro Norte-fluminense de
Conservação da Natureza |
RJ |
1977 |
|
SAPLAM - Sociedade dos Amigos das
Praias e Lagoas de Maricá |
RJ |
1978 |
|
APAN - Associação Paraibana de Amigos
da Natureza |
PA |
1978 |
|
APANDE - Associação Amigos de
Petrópolis, Patrimônio, Proteção aos Animais, Defesa da Ecologia |
RJ |
1978 |
|
APROBO - Associação dos Protetores da
Natureza dos Vales da Bocaina |
MG |
1978 |
|
AMDA – Associação Mineira de Defesa
Ambiental |
MG |
1978 |
|
ADEAM - Associação de Defesa e Educação Ambiental de Maringá |
PR |
1979 |
|
ASPAN - Assoc. Pernambucana de Defesa
da Natureza |
PE |
1979 |
|
ARCA - Associação para Recuperação e
Conservação do Ambiente |
GO |
1981 |
|
GAMBÁ - Grupo Ambientalista da Bahia |
BA |
1982 |
|
Mater Natura |
PR |
1983 |
Fonte: Herculano, 1994
Devemos também incluir entre as
entidades ambientalistas influentes aquelas que, em 1991, demonstraram a
capacidade de informação e de organização para pleitearem obter cerca de 25
milhões de dólares como recursos que viriam de mecanismos de conversão da
dívida externa brasileira em projetos ambientais, segundo Resolução 1840 do
Banco Central):
Associação de Defesa da Juréia
(Pró-Juréia), SP;
Fundação Biodiversitas, MG;
Fundação Brasileira
de Conservação da Natureza - FBCN, RJ;
Fundação Ecotrópica, RJ;
Fundação Nacional de Ação Ecológica
(FNAE), Brasília (de Raquel Feldmann);
Fundação Pró-Natureza (Funatura),
Brasília;
Fundação SOS Mata Atlântica, SP;
Fundação Movimento Onda Azul, Salvador;
Sociedade Brasileira de Espeleologia
(SBE);
Sociedade em Defesa do Pantanal
(Sodepan), Campo Grande, MS;
Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem
e Educação Ambiental (SPVS), Curitiba; Sociedade de Preservação aos Recursos
Naturais e Culturais (Sopren), Belém;
União dos Defensores da Terra (Oikos),
SP.
(Algumas
destas atuando como canais de pressão junto às Cãmaras Legislativas,
trabalhando em sintonia com parlamentares, como a antiga Óikos, em São Paulo, e
a União dos Defensores da Terra e, mais recentemente, Os Verdes, no Rio de
Janeiro.)
Destacamos
também: a Fundação Vitória Amazônica – FVA, o Grupo de Trabalho Amazônico –
GTA, a Secretaria das Entidades Ambientalistas do Nordeste – SEAN, o Vitae
Civilis – Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz, que se somam à
CUT, FASE e INESC na Coordenação do Fórum Brasileiro de Meio Ambiente e
Desenvolvimento. E ainda:: a Associação
Ambientalista Bandeira Verde – AABV (PR, 1989); a Ação Democrática Feminina
Gaúcha – ADFG, a partir de1991 transformada em seção da Amigos da Terra; a
Associação Matogrossense de Ecologia – AME-MT; a Associação de Preservação do
Alto Vale do Itajaí – APREMAVI (SC, 1987); o Conselho Nacional de
Desenvolvimento e Defesa da Amazônia - CNDDA; Conselho Regional de
Acompanhamento e Fiscalização Ambiental, CRAFA-EN (SP, 1989); Grupo de Ação
Ecológica – GAE (RJ); Grupo de Defesa da Natureza – GDN (RJ, 1988); Grupo de
Defesa Ecológica – GRUDE (RJ); Grupo de Recomposição Ambiental – GERMEN (BA);
Instituto de Estudos Amazônicos e Ambientais – IEA (PR e DF); Instituto
Sócioambiental – ISA (SP,1993); Movimento Cidadania Ecológica – MCE (RJ);
Movimento Conservacionista Teresopolitano – MCT (RJ); Movimento Ecológico Livre
– MEL (SC); Movimento Popular e Ecológico – MOPREC (SE); OS VERDES/Movimento de
Ecologia Social (RJ); Pró-Tamar – Fundação Centro Brasileiro de Pesquisa e
Proteção à Tartaruga Marinha (ES, 1988); Sociedade Angrense de Proteção
Ecológica – SAPÊ (RJ); União Protetora do Ambiente Natural – UPAN (RS). Esta
lista não é de forma alguma exaustiva.
W. Berna, militante e estudioso da
ambientalismo, dividiu o movimento em “ONGs de combate”, que fazem denúncias
ambientais e manifestações, e as “ONGs de projetos e de assessorias”, de
caráter mais profissional[10].
Tal classificação, inspirada na análise de um “Ambientalismo Complexo”, de
Viola e Boeira, provocou polêmica, mas chama a atenção para um critério
realista que marca o perfil das entidades ambientalistas, que é a questão do
profissionalismo e da competência técnica. Quais as ONGs ambientalistas que
dispõem de assessoria jurídica, técnica (topografia, laboratórios, etc.),
pessoal especializado/apaixonado, que possa dar dedicação total a esta labuta?
Em linhas gerais, a ainda baixa
organicidade do movimento ambientalista brasileiro é contrabalançada pela alta
escolaridade da sua militância (80,74% de suas lideranças com nível superior de
instrução), que trabalha predominantemente como professores e pesquisadores de
ciências naturais e humanas (76,7%), com uma forte presença em órgãos do
Estado. De 1992 até agora, ano 2000, com
a maior acessibilidade dos computadores e a disseminação progressiva da
internet, algumas entidades de combate ganharam foros de profissionais e, com
isso, parcerias com o Estado. Outras entidades mais institucionalizadas se
alçaram aos cargos públicos do SISNAMA (o que é encarado como uma vitória
relativa, posto que os órgãos ambientais oficiais têm, em linhas gerais, uma
estrutura sucateada e carente de recursos). Apesar da baixa organicidade e da
quase ausência de recursos ser ainda a sua realidade, as entidades
ambientalistas – ONGS ou Movimentos, de combate ou profissionais - são
organizações relativamente influentes, na medida em que estão próximas ou
dentro do Estado e têm acesso à imprensa, para atuarem como formadoras de
opinião (HERCULANO, 1996).
Críticas
feitas às ONGs e redefinições de seus papéis no Brasil e na comunidade
internacional
As
ONGs sofreram críticas da esquerda mais ortodoxa: para Petras (1990:67-71), por exemplo, as ONGs
eram intelectuais institucionalizados, que teriam uma vida política vazia e
estariam resguardados por programas em moedas fortes. Elas uniriam uma crítica
ostensiva do modelo econômico neoliberal ao comprometimento pelas relações de
dependência com redes de ultramar. Este mundo de centros de pesquisa financiados
a partir do exterior contrastava, segundo ele, com universidades e institutos
públicos arrasados. Para Petras, os
intelectuais desses centros teriam sido paradoxalmente beneficiados pelo
aprofundamento das crises econômicas que agudizaram a miséria, assim
incrementando a preocupação política das agências exteriores de financiamento.
Em uma primeira onda, dedicaram-se às violações dos direitos humanos e à
crítica ao modelo econômico; numa segunda, aos novos movimentos sociais: de
etnias, de mulheres, de cidadania. Numa terceira onda, estariam concentrados no
estudo da dívida e no processo de democratização. Agora, na quarta onda, seria
a vez do ambientalismo.
Petras
criticava as ONGs/APDs/SMP, ou Centros, como as designava, por ignorarem a questão da luta de classes.
Assim, teriam proclamado que os movimentos sociais se contrapunham à política
de classe e que seus esforços estavam
muito distanciados das ideologias ultrapassadas. As ONGs, enquanto intelectuais
institucionalizados dos anos 80, teriam assumido o lugar dos intelectuais
orgânicos dos anos 60, que eram parte
integrante dos sindicatos, dos movimentos estudantís e dos partidos
revolucionários, diretamente ligados às lutas contra o imperialismo e o
capitalismo. Petras acusava esses intelectuais institucionalizados de terem se
desligado dos conceitos-chave que iluminavam as lutas populares, hoje tidos
como fora de moda - luta de classes, imperialismo, poder popular - tendo-os
substituído por "noções vazias" como a de participação popular,
pactos, criando assim a "metafísica da pós-política".
Nessa
mesma linha crítica, Moller (1991:37-50) examinou as relações entre as agências
(órgãos internacionais de apoio e financiamento a projetos não-governamentais),
os centros (as ONGs do Terceiro Mundo, que o autor define como OPD - órgãos
privados de desenvolvimento) e os grupos e movimentos populares. Para o autor,
tais relações se desenham como clientelísticas, com os centros atuando como
intermediários dependentes em um mercado de doações. Os centros, que teriam
nascido com o objetivo de promoverem organizações populares e estimularem a
conscientização de um sujeito popular, se profissionalizaram e burocratizaram
na medida em que recebiam fundos das agências internacionais.
É
muito difícil saber sobre as ONGs,
principalmente as do hemisfério norte, queixava-se Tandon (1991: 68-78): seu processo de tomada
de decisões seria secreto, assim como sua relação com os próprios governos.
Muitas delas se denominam não-governamentais, apesar de receberem fundos diretos
dos governos: as ONGs holandesas Novib e Hivos receberiam respectivamente,
segundo o autor, 100% e 70% de seus recursos diretamente do governo; a SNV
seria braço direto do Ministério do Exterior holandês); as ONGs canadenses
receberia fundos da ODA, canalizados através da CIDA (Canadian International
Development Agengy). Na Alemanha, as quatro maiores fundações estariam ligadas
aos quatro maiores partidos políticos: a Fundação Konrad Adenauer, ligada ao
Partido Democrata Cristão; a Friedrich Ebert Stiftung -FES - ligada aos
sociais-democratas; a Friedrich Naumann, ligada aos liberais e, mais recentemente, a Fundação Boll, ligada aos
Verdes.
No
Brasil, ambientalistas criticaram, no contexto da UNCED-92, o afã com o qual as
ONGs/APD/SMP teriam passado a se definirem como ecologistas: tudo se resumiria,
diziam eles, a uma questão de captação de recursos, uma vez que, da mesma forma
que o surgimento do PNUD (Programa da ONU para o Desenvolvimento) teria sido
detonador de tantas ONGs de desenvolvimento, o relativamente recente surgimento
e discussão de efetiva operacionalização do PNUMA (Programa da ONU para o
Meio-Ambiente) e seu Fundo de Meio-Ambiente (GEF) estariam sendo os
catalizadores de corrida em direção a verbas ambientais.
Para Assumpção, as ONGs a serviço do
movimento popular disputaram um jogo classificatório com outras entidades que
mais recentemente deram visibilidade pública e reconhecimento ao campo,
afetando o monopólio da sigla que as ONGs/SMP vinham ocupando
(Assumpção,1993:16). Foi o caso das
"ONGs ambientalistas". Assumpção também nos fala da busca de
reconhecimento que as ONGs/SMP iniciaram junto às instâncias oficiais, como
entidades específicas na cena política e social brasileira (1993:40). A questão da identidade das ONGs/SMP e da
redefinição de seus papéis também passa, segundo a autora, pela ambiguidade das
suas relações de aliança/concorrência com as universidades: as ONGs teriam
buscado construir seu campo de atuação através de um processo de desmoralização
e de des-legitimação das obras e agentes da academia, cujos intelectuais eram
tidos como pedantes, herméticos, encerrados em torres de marfim, enquanto o
pessoal das ONGs era o intelectual orgânico participativo, acessível, a serviço
dos movimentos. A autora nos conta que o intelectual das ONGs, recém-vindo da
academia, "devia passar por uma
reciclagem, em que estava em jogo uma espécie de mea culpa por suas origens em
que o 'elitismo' rondava por perto... mas, se os diplomas de nada valiam,
formalmente valiam muito, por exemplo na relação com as instituições
financiadoras" (Assumpção, 1993:109, nota 9)
Aqui
surgidas na clandestinidade, contra governos totalitários, as ONGs/SMP
brasileiras vivenciaram uma espécie de crise de identidade quando a conjuntura
política mudou: podendo mostrar sua cara e atuar abertamente, que objetivos
traçar, por qual ideário se orientar? Iriam desaparecer? Iriam se tornar
pára-governamentais? Penderiam para ser centros - assessoria - aos movimentos
ou serão atores diretos?
A
criação, em 1991, de seu coletivo, a Associação Brasileira de ONGs, refletiu
tal preocupação, na medida em que suas associadas declaravam sua vontade em
deixar de ser assessoria e mediação e se tornarem elas próprias atores
coletivos, falando em seu próprio nome:
"As ONGs estão emergindo no
espaço público como atores e elas vão falar. O IBASE quer deixar de ser o
tapete por onde passam os movimentos e ser ele próprio um ator político". (O Sociólogo Betinho - Herbert de Souza
- discursando durante a fundação da ABONG, Rio, 10/9/91)
A
ABONG teria o papel de legitimar suas associadas e de dar a elas um respaldo
que a Igreja Católica propicia às suas Comissões Pastorais. As ONGs/SMP, embora
tenham uma autonomia que as Pastorais - suas co-irmãs em objetivos e motivações
- não têm, são muito mais frágeis e sujeitas a instabilidades.
"O projeto das pastorais é de dar voz
ao povo, permitir que vá se formando espaços, fortalecendo suas organizações.
Nesse sentido, não haveria tanta diferença entre uma Pastoral e uma ONG. Mas em
termo formais, há: para nós é muito importante termos uma associação nossa - A
ABONG - porque não temos por trás uma legitimidade da igreja". (J.P.
Leroy, entrevista à autora, em jan/92)
Para
Franklin Martins, jornalista estudioso e crítico das nossas ONGs/SMP, as ONGs
vêm mantendo uma relação ambígua com o Estado, já que participam diretamente
das decisões sobre políticas públicas em diversas áreas e são mantidas, em boa
medida, com recursos governamentais, mas não se sentem responsáveis pelas políticas
que ajudam a aprovar. O jornalista se opunha à fala retórica de Betinho, que
defendia as ONGs como "modelos de eficiência, honestidade, espírito
público e compreensão das necessidades do povo, em oposição a um Estado
ineficiente, corrupto, corporativo e impermeável aos interesses populares.
Pilantras e picaretas, assim como gente séria e competente, existem dos dois
lados da fronteira". A crítica mais pertinente às ONGs diz respeito à
questão da representatividade, já que transparece em seus discursos uma fala em
nome do povo, da sociedade civil, sem que tenham recebido delegação formal que
as legitimasse em suas tarefas. Um outro ponto seria o controle dos seus
representados. As pessoas que dirigem o Estado, observou Martins, são obrigadas
regularmente a prestar contas de seus atos à sociedade, podendo ser afastadas
de suas funções pelo voto. No caso das ONGs, quando muito, esse controle é
efetuado pelos sócios das entidades, que no Brasil não costumam ser muitos.
"Há
algum tempo, durante um almoço, Betinho disse-me que a relação das ONGs com o
Estado deveria ser como a da formiguinha que pica o elefante para que ele se
mexa. A imagem é boa...A imagem reconhece que, por mais próximas que estejam do
Estado, as ONGs são externas a ele. O elefante deve andar com as próprias patas
e decidir com a própria cabeça. Só quem pode governar o Estado é quem foi
eleito pelo povo para isso. Parece óbvio, mas não é...Atualmente, em particular
na área social do Estado, as ONGs têm assento em numerosos conselhos que discutem
questões como ação social, direitos da mulher,proteção ao menor,saúde,etc.
Geralmente detém metade desses fóruns e muitas vezes, comandam suas
decisões...Isso não chega a ser problema quando os conselhos têm caráter
consultivo... mas há casos em que os conselhos assumiram funções deliberativas,
não só aprovando políticas públicas, como tentando controlar sua execução.
Trata-se claramente de uma exorbitância...Por mais bem-intencionadas que sejam,
elas não representam a sociedade. Betinho sabe disso ... e sai pela tangente
... diz que as ONGs são uma forma de cidadania ampliada. E conclui com uma
generalidade: "o cidadão é quem funda o poder do Estado. Não é o Estado
quem lhe dá legitimidade ou autorização para existir como cidadão livre e autônomo".
O sociólogo confunde duas coisas diferentes: liberdade de pensamento, expressão
e de manifestação com representação política. Qualquer um de nós tem o direito
de pensar, propor, criticar,sugerir e apoiar o que quiser. Mas não tem o
direito de se arvorar em representante de outras pessoas, a menos que tenha
recebido um mandato expresso nesse sentido... As ONGs são extremamente
importantes, lubrificam a circulação de idéias, organizam as pressões. chamam a
atenção para problemas ainda encobertos, atuam como fermento social. Mas não
substituem o voto e, específicamente, o Parlamento...Outras instâncias podem
coadjuvá-lo, mas nunca substituí-lo... (O Globo 8/7/96)
O "povo das ONGs", seus técnicos,
assessores e militantes, tende a formar, no contexto brasileiro, uma outra
classe de cidadãos, estes que, em função de sua alta escolaridade, formação e
informação, falam e agem em nome dos que não sabem ou não podem agir, aqueles
que têm uma cidadania mais formal do que real, resumida a votar em algum
representante formal sobre o qual não têm controle efetivo. Com efeito, uma das
questões polêmicas diz respeito à questão da representatividade da atuação
desta militância que chamou a si a iniciativa de lutar pelo interesse publico,
sem passar pelo caminho difícil - e
algumas vezes farsesco – da democracia representativa.[11]
Como
vimos, a esquerda ortodoxa criticou nas ONGs o seu descomprometimento com as
bandeiras e motes já clássicos, tais como a luta de classes, o imperialismo
etc., bem como criticou a sua falta de um projeto globalizante e
revolucionário. Com efeito, as ONGs de assessoria no Brasil traçaram suas
estratégias a partir do projeto de política do cotidiano em lugar da busca do
dia D da grande revolução; buscam a organização popular e a formação de sujeitos
coletivos de uma democracia de massas,
em táticas coerentes com o que vem sendo chamado de reformismo radical
(HABERMAS; COUTINHO). Trata-se de organizar setores populares e colocá-los em movimento, articulando-os em
redes internacionais para reforço mútuo, elaboração conjunta de propostas,
troca de informações etc. Como as ONGs/SMP o fizeram, ao criarem a CUT (Central Única de Trabalhadores), o CNS
(Conselho Nacional dos Seringueiros), etc. Para muitos ambientalistas, a
relativamente recente inclusão das ONGs/SMP no campo ambientalista nacional
havia lhes trazido a esperança de que elas trariam organicidade ao movimento
ambientalista, que sinalizariam a criação de uma "CUT do movimento ambientalista", o que todavia ainda não
ocorreu. (O Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Soiais para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento, após acaloradas discussões quando do término da UNCED/92 sobre
sua continuidade ou auto-dissolução, resolveu, após um hiato de tempo,
continuar e hoje tem uma Coordenação Nacional formada pela Associação Gaúcha de
Proteção am Ambiente Natural – AGAPAN; pela Central Única dos Trabalhadores –
CUT; pela Fedração de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE; pela
Fundação Vitória Amazônica – FVA; pelo Grupo de Trabalho Amazônico – GTA; pela
Secretaria das Entidades Ambientalistas do Nordeste – SEAN; pelo Instituto para
o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz; pelo Instituto de Estudos
Sócio-Econômicos – INESC; suplência: Rede de ONGs da Mata Atlântica)[12].
As
ONGs e a cidadania planetária:
O
cientista político Brigagão (1991)
contabilizou 8 mil ONGs "completamente independentes e autônomas" e
outras 10 mil mini-instituições com a participação substancial ou exclusiva de
cidadãos privados." Somadas, essas 18 mil ONGs, além de outras 2 mil
organizações intergovernamentais, formariam, segundo o autor, um total de 20
mil organizações internacionais que sinalizariam uma mudança global. Deste
total, 1% seriam federações de outras ONGs,
8% teriam representação
"universal", 17% seriam intercontinentais e a grande maioria seriam
regionais. Funcionam, segundo o autor (ele também partícipe do mundo das ONGs),
como uma diplomacia paralela ou grupos de
pressão, criando formas alternativas
de cidadania (grifos meus),
abrindo novos canais de comunicação e de cooperação entre hemisférios Norte e
Sul. As ONGs seriam, para o autor,
"antídotos à desesperança". (Brigagão, 1991)
O
supranacionalismo das ONGs e seu sentimento de fraternidade universal em busca
de uma cidadania planetária parecem, com efeito, uma característica marcante:
segundo o cientista político Hector
Leís (1992), as ONGs seriam os únicos atores para uma política global que
poderiam enfrentar a ação deletéria do mercado internacional, uma vez que
seriam promotoras de instâncias de articulação mundial e germes de uma nova
institucionalidade planetária. Seriam coletivos de cidadania transnacionais,
com a missão de resolver nossa crise civilizatória. Liszt Vieira (1997) também
partilha da mesma idéia, propondo a sociedade civil planetária como a “
terceira margem do rio”. Nessa mesma linha de pensamento Boulding (1988) concebe as ONGs como
construtoras de uma cultura civil
global. No Encontro Internacional de ONGs (Paris, 1991), este aspecto da cidadania transnacional mereceu destaque:
"Démocratie
participative en echelle internationale, droit international, un tribunal;
refléxion sur le mode de production et de consommation; develóppement
équitable..forces dispérsées se regroupant, faire émerger une conscience
planétaire... ONGs représentants de l'opinion publique mondiale, mais tout en
s'interrogeant sur la légitimité du porte-parole. [13]
"Nous, membres d'ONGs, décidons de nous
consacrer au renforcement du pouvoir des citoyens et de créer une organization
internationale" [14]
VACCA, em texto divulgado pelo Ibase,
desenvolvia o mesmo ponto:
"O
desenvolvimento pleno da democracia postula, então, a superação da ordem
mundial baseada no papel protagonista dos Estador-nações. Isso requer a
cooperação entre os povos, as formas mais variadas de integração supranacional,
na interdependência e na reciprocidade; o desenvolvimento de elementos de
"governo mundial", caracterizados por institutos inéditos de
democracia internacional". (Vacca,
1991:114)
No mesmo escopo trabalha a Comunidade
Internacional Bahá’I, de fundo religioso, muito atuante no contexto
preparatório da UNCED/92 e que divulgou panfleto intitulado “A Cidadania
Mundial, uma ética global para o desenvolvimento sustentável”, encorajando as
pessoas a se “considerarem cidadãos de um só mundo e construtores de uma
civilização mundial justa e próspera”.
Ainda no mesmo diapasão, o Movement of
Citizens and Peoples of the World (MCPW), com sedes na Itália, Sâo Paulo e
Austrália, divulgou no fértil contexto da UNCED/92 seu manifesto “La Realta’ di
um Movimento nel Movimento della Realta’ ” no qual propunha estratégias globais
de cooperação internacional direta entre os diversos povos.
“Who speaks for Humanity?” (Quem fala
pela humanidade?), perguntava um panfleto distribuído no Fórum Global de
Cidadãos, durante a UNCED, no qual se demandava um parlamento mundial, uma
federação e uma constituição planetárias. Tratava-se de uma iniciativa da World
Constitution and Parliament Association, estabelecida no Colorado, USA e que
tinha no seu comitê executivo alemães, africanos, poloneses, asiáticos,
mexicanos. (O Brasil aparecia como um dos “trustees
and honorary sponsors”):
‘Dear
Citizens of Earth: we want to offer you and your organization an opportunityto
expedite the achievements of your objectives – many times more rapidly and
affectively than before. The opportunity we offer is for your organization and
yourself to join in the global camaign for the ratification of the Constitution
for the Federation of Earth, and the election od felegates to the World
Parliament, which is empowered under the Earth Constitution to devise and
implement peaceful solutions to all problems which transcend national
boundaries: … disarmament … climate change crisis…development and finances …
human rights … safe energy supplies … many other urgent global problems … for
adequate action in time for the survival of humanity on Earth.”
A World Federalist Movement, sediada em
Nova York, também marcou presença, defendendo também uma federação mundial,
baseada no “princípio da subsidiaridade”:
“que todas as decisões sociais e políticas devam ser feitas no nível local
apropriado. Contudo, há temas tais como paz, desarmamento, direitos humanos,
justiça e proteção ambiental que são globais por natureza e requerem uma resposta
da comunidade global. Esforços nacionalistas têm piorado a situação. Assim, a
WFM trabalha para dar poder político e legal a instituições mundiais que lidam
com problemas globais e simuntaneamentre apoia governos nacionais e locais nas
suas questões internas”. O propósito declarado era fortalecer os cidadãos do
mundo em benefício da “família humana”.
O Fórum Global de Cidadãos, da Rio/92
foi, com efeito, fértil em propostas assim transnacionais. Ali também se
distribuiu o jornal World Citizen News, órgão do World Government of World
Citizens, que também pugnava por um governo mundial e divulgava o livro de seu
organizador, Garry Davis, intitulado “Passport to Freedom: a guide for world
citizens”.
Em escala mais restrita, a Aliança dos
Povos do Norte para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, uma rede de
organizações dos “21 países industrializados”, criada em outubro de 1991 em um
encontro em São Sebastian, nos Países Bascos, desenvolvia uma campanha
intitulada “People for the World”, dedicada a reduzir a emissão de dióxido de
carbono nos países industrializados e a apoiar reforma agrária e direitos
humanos nos países detentores de florestas tropicais, como forma de salvá-las.
A esfera das ONGs é supranacional na origem e
na sua inspiração de cidadania planetária,
no que retornam à tradição do pensamento internacionalista das
esquerdas. Segundo Galtung (1980), o mundo caminharia para um governo mundial,
que já tem sua organização internacional em multinacionais privadas e
governamentais e em empresas transnacionais; em sistemas de alianças e tratados
militares internacionais; em organizações internacionais governamentais e em
sistemas de comunicação internacionalizados e organizações não-governamentais
transnacionais.
Para
Galtung, é nessas últimas que estaria a contra-tendência a este hiper-sistema
de dominação global, pois seria uma rede não-territorial, formada pelas pessoas
que têm uma ação inovadora. Essas redes populares realizariam, segundo Galtung,
a utopia pluralista e igualitária de um mundo comunista com equidade e
diversidade, autonomia e auto-suficiência, onde, dentre outras coisas, a
política não seria uma profissão e haveria participação direta no processo
decisório das pequenas sociedades na qual o mundo compor-se-ia. As ONGs seriam
estas redes e também suas integrantes.
O
mundo proposto pelas ONGs é um mundo de ação direta, de formas novas de
participação através da cidadania coletiva. Seu modelo se afigura como uma
pólis ateniense de escala mundial.
Contudo, o processo de criação dessa sociedade democrática que, segundo
Herbert de Souza, implodiria o capitalismo, não é um processo democrático no
sentido da sua universalidade. Segundo ele, "a emergência popular na
política pode não significar o desenvolvimento da democracia, uma vez que o
popular, o assalariado, o povo, os movimentos populares, podem perfeitamente
lutar dentro do mundo do capital":
"Para
se negar o mundo do capital não bastaria estar dominado por ele e disto ter
consciência, seria necessário pensar e propôr um outro mundo e quem não fôr
capaz de realizar essa proeza não será capaz de negar o capital...Pensar um
novo mundo não significa inverter o velho, mas propôr um novo. O dominado
pode não ser capaz de inventar um mundo sem dominação. O Popular pode não ser
capaz de propôr a democracia, porque a democracia não é uma invenção da
dominação, mas da liberdade".(Souza, 1987: 9-28) (grifos meus)
Os
Movimentos Sociais:
O
uso da expressão
"movimento social" pretende se referir à espontaneidade de
manifestações associativas de cidadãos, aludindo a características gerais de
informalidade, baixa organicidade, intermitência, fluidez, inspiração política
das esquerdas e maior expressão numérica de participantes. Isto não quer dizer que todos os movimentos
sociais sejam de baixa organicidade (a história recente do MST - Movimento dos
Sem-Terra - é exemplo da possibilidade de alta organicidade deste tipo de
associativismo, apoiado por organizações eclesiásticas nacionais e
internacionais). Mas creio que a continuidade do uso da expressão
"movimentos sociais" obedece a três lógicas: 1) a necessidade
estratégica das ONGs/SMP em sublinharem sua diferença em relação às associações
de cidadãos que assessoram, ou seja, entre o corpo técnico das ONGs/SMP e sua clientela,
os cidadãos assessorados; 2) a preocupação em salientar a visão e a atuação
mais crítica destes movimentos, herdeiros da influência teórica marxista
aplicada às ciências sociais, distinguindo-os das demais associações civis sem
a mesma inspiração política; 3) a naturalização da sua presença intermitente,
de seus fluxos e refluxos, de seus recessos, relacionados aos momentos
diferentes dos ciclos vitais de sua militância.
Segundo
Scherer-Warren (apud Doimo, 1993), a expressão teria sido criada por volta de 1840
para designar o surgimento do movimento operário europeu, e ingressou no
marxismo para "representar a possibilidade de transformação racional das
relações econômicas privadas do sistema capitalista"; posteriormente,
"Movimento Social" passou a significar novas formas de participação,
"também destinadas a alterar a lógica capitalista, só que agora espontaneamente organizadas na esfera da cultura" (grifo da
autora).
A
expressão “movimentos sociais” se consagrou a partir dos estudos do sociólogo
Manuel Castells, na década de 70, ao acompanhar as reivindicações e protestos
urbanos das classes pobres de Madrid, no contexto do final da ditadura
franquista. A partir de uma análise marxista, Castells procurou inovar
teóricamente esta perspectiva, vendo os movimentos sociais urbanos em busca do
direito aos meios de consumo coletivo (escolas, hospitais, ruas asfaltadas,
abastecimento de água, rede de transporte, etc.) como tão contestatórios ao
capitalismo, no que diz respeito ao consumo, quanto o movimento proletário, no
que diz respeito à esfera da produção.
Jordi
Borja também deu destaque à expressão “movimentos sociais” ao frisar que os
movimentos reivindicativos urbanos, dos usuários da cidade, enfrentam
empresários capitalistas, que deterioram a cidade, e o Estado que, na qualidade
de gestor dos equipamentos coletivos, tende a distribuí-los de maneira
desigual, assim aumentando o seu deficit .
Segundo
Machado (1986), as análises sociológicas sobre os movimentos sociais, feitas no
decorrer de 70 e início dos anos 80 padeciam de certos equívocos: "estudava-se o corriqueiro, o banal, pensando
no grandioso e na ruptura". Os estudos tinham ainda uma concepção
monolítica e instrumentalista do Estado como "lugar dos dominantes, encastelados nos aparatos de Estado ou nos
partidos políticos, que deveriam obstar a missão histórica dos movimentos
populares" (Eder, 1990).
Para
Carvalho & Laniado (1989), tratava-se de divergir da visão da sociedade
civil como sendo frágil diante do Estado, apontando para a constituição de
novos sujeitos políticos e novas práticas, então percebidos como "dotados
de atributos renovadores, positivos e de imensas possibilidades de
transformação e de avanços". Os Movimentos Sociais, porém, entraram em
baixa quando sindicatos e partidos recuperaram sua antiga presença. Assim, os
Movimentos se caracterizaram por serem intermitentes, cíclicos, defensivos,
incapazes de formular projetos mais abrangentes.
Na
análise de Touraine (1984), as referências aos Movimentos Sociais apareciam
como "uma maneira indireta e confusa
de salvar certos aspectos do modelo revolucionário em declínio" (Touraine,
1984: 320).
A
partir de 1980, a Sociologia produz nova categoria, a dos “novos movimentos
sociais”. O que seriam?
De acordo com Habermas (1981), desde os anos
60 começaram novos conflitos, que não estariam mais na área da reprodução
material nem seriam canalizáveis pelos partidos e organizações. Seriam formas
sub-institucionais e extra-parlamentares de protesto, buscando defender estilos
de vida ameaçados. Não teriam a ver com problemas de distribuição, mas com a
"a gramática das formas de vida ",
com uma nova política que enfoca problemas da qualidade de vida, igualdade,
auto- realização individual, participação e direitos humanos. Esta nova
política teria como sujeito uma nova classe média, os jovens e os grupos de
alta escolaridade. A crítica ao crescimento econômico os unificaria. Suas
expressões européias eram o movimento anti-nuclear, o movimento ambientalista,
o pacifista, os alternativos, as minorias, os movimentos de ação do cidadão
(Habermas, 1981:33).
Embora perceba uma diferença nesses
movimentos, entre aqueles que seriam de
resistência e recuo (os verdes) e aqueles com potencial emancipatório (as
mulheres), Habermas os define no seu conjunto como movimentos de resistência às
tendências de se colonizar o mundo vivido.
Segundo
Feher & Heller (1984), enquanto os anos 60 viram surgir movimentos pela
liberdade, criadores de contra-instituições, hostís à mídia e que saíam da
periferia social para o centro, os anos 80 assistiram ao nascimento de
movimentos pela vida, que se situavam no próprio centro da esfera pública,
imbuídos da importância da mídia e também reconhecendo a importância do Estado
e demais agentes. Esses novos movimentos seriam transfuncionais, fluidos, de
caráter público, não conspiratórios, informais, buscando mobilizar a sociedade
civil e não tomar o poder. Apesar deste novo quadro, os autores consideram
ainda ser pertinente a divisão entre esquerda e direita, para analisá-los: seriam
de esquerda os movimentos que unem a busca da liberdade à defesa da vida e de
direita aqueles que opõem os dois termos (Feher & Heller, 1984: 44).
Para Evers (1984), Novos Movimentos Sociais são
aqueles que renovam padrões sócio-culturais e psíquicos do cotidiano, em
direção à sociedade alternativa. O autor propõe que sejam vistos como "fragmentos de subjetividade
atravessando a consciência e a prática das pessoas e das organizações. Caracterizam-se
pelo número baixo de participantes, pelas estruturas não-burocráticas e até
informais, pelas decisões coletivas e pelo não-distanciamento entre líderes e participantes. No Brasil, seriam uma
cultura de classe média e das comunidades eclesiais, em busca de uma construção
de identidades e de um projeto emancipatório. O autor então questionava se a
população pobre e marginalizada poderia vivenciar novas formas de
sociabilidade.
Os Movimentos
Sociais caracterizariam, segundo Touraine (1984), um ator coletivo engajado num
conflito pela gestão social, enquanto que os Novos Movimentos Sociais não
atacariam a divisão do trabalho ou formas de organização da economia, mas sim
os valores culturais, o progresso. O conceito de luta de classes seria
insuficiente para entendê-los. Marcariam o início de um momento romântico que
estaríamos começando a viver. O próprio fato de serem fracos e de influência difusa mostraria sua autonomia
em relação às instâncias políticas e em relação ao Estado. (Touraine, 1984:
321)
No
Brasil, a história recente dos Movimentos Sociais costuma ser apresentada como cortada em dois momentos, com
características diversas:
a) um primeiro momento, durante
a ditadura dos anos 70, quando os movimentos de mães e de moradores pobres das
periferias metropolitanas, assessorados
pela Igreja e por uma militância política que não tinha outro canal de
expressão, colocavam suas reivindicações de atendimento a demandas básicas
diante do Estado, e expressavam seu descontentamento em manifestações contra a
carestia (os chamados movimentos sociais urbanos);
b) um segundo momento, a partir
do início da década de 80, quando novos partidos, um novo sindicalismo,
associações de bairro e suas federações se organizam, movimentos de mulheres,
de etnias, movimentos ambientalistas surgem, todos ainda tendo como traço comum
a eleição do Estado como interlocutor básico, dele demandando políticas
públicas efetivas e adequadas.
Para
Jacobi & Nunes (1983), os Movimentos Sociais revelavam a precariedade dos
canais de representação política no período autoritário.
No
caso latino-americano, nossos movimentos sociais têm como interlocutor o
Estado; são voltados para dentro, ainda buscando constituir sua identidade
através do apelo comunitário; afirmam os direitos da pessoa ao mesmo tempo em
que rejeitam a ordem social. Ficam assim marcados pela ambiguidade, conclui
Touraine, oscilando entre individualismo e comunitarismo, integração e ruptura.
Isso explicaria sua oscilação entre
uma retórica anti-estatista e sua convivência próxima com um Estado que é ao
mesmo tempo adversário e protetor.
Segundo
Scherer-Warren (1993:20-25), a temática dos movimentos sociais deu lugar, nos
estudos sociológicos dos anos 90, a estudos sobre o antimovimento ou condutas
de crise, a desmodernização, a exclusão, a massa enquanto agregado inorgânico,
numa palavra, ao desmovimento. O estudo dos movimentos sociais que
persistiu, o repensa a partir do estudo das interconexões entre o local
(comunitário) e o global (supranacional, transnacional), com ênfase no estudo
das articulaçôes em redes, bem como nas análises sobre a persistência dos
vestígios das formas tradicionais de fazer política (clientelismo,
paternalismo, autoritarismo populista ou estalinista) nos celebrados Novos
Movimentos Sociais.
Conclusões: co-gestão, parcerias ou
esvaziamento da esfera pública?
Como mencionado, apesar de alguns
militantes se referirem indistintamente a ONGS e Movimentos Sociais, há, no
caso brasileiro, um elemento de distinção, pelo qual ONG tem a ver com uma
entidade institucionalizada, influente, inserida nos canais de diálogo com o
Estado e com as organizações multilaterais, enquanto os movimentos sociais
tendem a ser grupos fluidos de cidadãos em estado de carência, ora assessorados
pelas ONGs, ora surgidos em episódios de manifestações e protestos.
Se
as ONGs/SMP formam um mundo supranacional, em razão de sua organicidade e de
sua história, nossos Movimentos Sociais, cujo interlocutor é básicamente o
Estado - ou, mais concretamente, os governos - são predominantemente nacionais,
locais. Tendem a ser informais ou a ter baixa organicidade e, por isso,
precisam da mediação e do apoio das ONGs, até mesmo para tecerem laços de
solidariedade além fronteiras. Dessas diferenças surgem parcerias pautadas por
tensões e por relações que, embora se assumam como organizadas em redes
horizontais, mantém internamente hierarquias funcionais. Há, entre ONGs e
Movimentos, uma tensão no que diz respeito ao papel de elite das ONGs de
assessoria - APD ou SMP sobre os Movimentos.
As
ONGs formam uma vanguarda, seus integrantes se assumem como elite de saber.
Sublinhar tal característica não tem aqui nenhuma intenção crítica: em uma
sociedade como a brasileira, onde faltam educação e condições objetivas
facilitadoras da participação, isso está no plano dos fatos e das necessidades.
Há, contudo, um caminhar no fio da navalha, pois essas elites subalternas tanto
podem atuar no sentido da construção de
um “reformismo radical” e cotidiano, como é sua proposta, quanto vir apenas a
se incorporar à elite dominante, trilhando caminhos de carreira individual,
renovando a elite de poder nos termos de Pareto. Neste último caso, nem sempre
atuam de forma eficaz, até porque são convidadas a ocupar espaços de uma
estrutura oficial sucateada.
Mais
recentemente, nos anos 90, após a democratização do processo político
brasileiro, as ONGs/SMP vêm se tornando parceiras do Estado, em programas
federais como o Comunidade Solidária e outros, em função de seu perfil de
atores organizados da sociedade civil sem fins lucrativos. Assim, passaram a
estar regulamentadas pela Lei 9.790/99, a chamada Lei do Terceiro Setor, e pelo
Decreto presidencial nº 3.100, de 30/6/99, definidor das OSCIP (Organizações da
Sociedade Civil de Interesse Público, definidas por exclusão como sendo aquelas
que não são sociedades comerciais, nem sindicatos, nem organizações partidárias
ou instituições religiosas).
Nestas
parcerias, as ONGs são chamadas a atuar em um quadro de transferência de
políticas e de serviços públicos para a esfera privada, e de diluição da
responsabilidade precípua do Estado, como bem analisou Leite. Assim, interesses
e decisões públicos passam para o âmbito do privado na medida em que a escolha
dos agentes que participarão deste processo têm características privadas –
competência, confiabilidade, informalidade, baseadas em redes de conhecimento,
sem passar pelo crivo da construção da representatividade democrática.
É
verdade que o Estado tem sido predominantemente paquidérmico, inoperante e
tomado de assalto pelos interesses privados. Também é verdade que o mundo das
ONGs no Brasil confunde-se ainda com a biografia das pessoas honestas,
altruístas e capazes, que foram suas fundadoras históricas. Mas estes atributos
de um e de outro não lhes são essenciais.
As
aludidas parcerias entre ONGs e Estado, apesar das vantagens acima apontadas,
podem trazer o perigo do esvaziamento da esfera pública, da profissionalização
do exercício da cidadania, da manipulação e cooptação dos cidadãos por governos
e/ou empresas, da omissão do Estado da sua responsabilidade pelo interesse
público e pelo bem-estar coletivo,
ONGs
e Movimentos Sociais têm exercido uma cidadania diferente daquela preconizada
pela democracia liberal. O exercício desta cidadania está baseado na
organização coletiva, no estudo, na busca e disseminação da informação como
elementos-chaves para a participação. É vocacional, plural, mas não é
universal, pois é professada por elites intelectuais e lideranças emblemáticas,
políticamente adestradas, de maior peso individual do que o peso advindo da
relativamente pequena massa dos seus representados. As ONGs e Movimentos
procuram ser formadoras de opinião e, recentemente, co-gestoras da coisa
pública. Trata-se de um exercício profissionalizado de cidadania, que busca
confrontar a lógica do lucro enraízada em uma Sociedade Civil pautada pela
perseguição a um crescimento econômico que tem sido injusto e insustentável.
Até que ponto esta tarefa ciclópica que ONGs e Movimentos Sociais se dão será
convergente com a suposta vontade geral
que surge dos votos dos cidadãos atomizados?. Haverá mesmo vontade geral? Se
há, a vontade das ONGs e Movimentos reflete e vocaliza a vontade geral
emudecida? Ou a suplanta e transcende?
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[1] Professora do Departamento de Sociologia da UFF; seleneh@nitnet.com.br e gsosele@vm.uff.br
[2]World Alliance for Citizen Participation (Aliança Mundial para a Participação dos Cidadãos), lançada em 1993 em Barcelona.
[3]Alusão ao planalto central brasileiro, onde fica Brasília.
[4]Cebep: Centro Evangélico Brasileiro de Estudos Pastorais, Publicação número 7 página 5: "A Conjuntura dos Movimentos Populares"
[5]Herbert de Souza, o Betinho, no artigo "Pinochet nasceu no Brasil", Jornal do Brasil, 26/3/94; ver também "A Planície vai guiar o Planalto", carta de Herbert de Souza ao jornalista Castello Branco, reproduzida pelo Jornal do Sintaerj, ago/93.
[6] United Nations Conference on Environment and Development/Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992.
[7] De acordo com relatório de Agneta (1991), havia naquele ano 19 ONGs italianas que trabalhavam com 48 projetos de ONGs brasileiras de desenvolvimento, desde que começou a cooperação Brasil-Itália, em 1980. A dotação de recursos, contudo, da Itália para o sul em geral, baixava: de 174,3 bilhões de liras em 1980, para 136,5 bilhões em 1990.
[8]Na sua tese de doutorado, apresentada ao UFRJ/MNA/PPGAS (Assumpção, 1993), Landim lista, de 1952 a 1991, 147 ONGs (Quadro 1); dentre estas, destaca 59 que participaram de eventos significativos do campo das ONGs/SMP (Quadro2) Na pesquisa de 1988, Landim listou 422 ONGs a serviço do movimento popular, 185 Ongs do movimento de mulheres e 403 Ongs do movimento ecológico, o que totalizava 1010 entidades sem fins lucrativos, trabalhando pelos chamados interesses difusos.
[9]Entrevista de Herbert de Souza a Solange Maria de Magalhães, para o Jornal Roda Viva, da ONG Roda Viva, dez/92
[10] Jornal do Meio Ambiente, julho de 1996.
[11] Ver HERCULANO, S.: "Estadania e Heroismo: o exercício da cidadania pelos segmentos intelectualizados da classe média.. Encontros com a Sociologia, Márcia Cavendish Wanderley (org.). Cadernos do ICHF n. 64, nov/94, pp 01-26.
[12] Outros coletivos brasileiros que aglutinam ambientalistas são: a Rede Cerrado de ONGs; o Fórum Permanente de Debates do Amazonas; o Fórum de Desenvolvimento e Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul; o CAPOIB – Conselho eArticulação dos Povos e Organizações Indígenas, as APEDEMAS – Assembléias Permanentesde Entidades em Defesa do Meio Ambiente, etc.
[13]Entrevista de Henri Rouillé, diretor adjunto para o desenvolvimento e a cooperação da ONG Racines de L'Avenir, em 19/12/91.
[14] Documento do Movimento Empower People
International.