{"id":420,"date":"2019-03-22T23:32:33","date_gmt":"2019-03-23T02:32:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/?p=420"},"modified":"2020-09-02T20:08:03","modified_gmt":"2020-09-02T23:08:03","slug":"as-origens-do-metodo-cientifico-moderno-enquanto-as-abordagens-possiveis-do-objeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2019\/03\/22\/as-origens-do-metodo-cientifico-moderno-enquanto-as-abordagens-possiveis-do-objeto\/","title":{"rendered":"As origens do m\u00e9todo Cient\u00edfico moderno enquanto as \u00a0abordagens poss\u00edveis do objeto."},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por: J\u00falio C\u00e9sar Medeiros da S. Pereira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Durante muito tempo, o desenvolvimento do m\u00e9todo cient\u00edfico ficou focado, sobretudo, no campo das ci\u00eancias naturais tais como: \u00a0astronomia, biologia e F\u00edsica. Contudo, durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX, as ci\u00eancias sociais come\u00e7aram a arrogar para si mesmas, o status de ci\u00eancia em p\u00e9 de igualdade com os demais campos de saberes.<\/p>\n<p>Naquele momento, a vis\u00e3o ontol\u00f3gica do realismo, que baseia-se no \u00a0pressuposto de que o mundo f\u00edsico \u00e9 real come\u00e7ou a ser discutido e a ganhar cada vez mais espa\u00e7o. Tal vis\u00e3o acreditava que o mundo que percebemos \u00e9 externo a n\u00f3s mesmos, e existe independentemente de nosso pensamento.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o epistemol\u00f3gica do positivismo ganhava for\u00e7a ao propor que era poss\u00edvel adquirirmos conhecimento sobre a real natureza do mundo atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o e da experimenta\u00e7\u00e3o. Esta vis\u00e3o real\u00edstica, positivista era principalmente aplicada aos fen\u00f4menos naturais. Mas com o desenvolvimento das ci\u00eancias sociais, impulsionada pelo motor do Imperialismo, come\u00e7a-se a se propor que uma vis\u00e3o mais real\u00edstica tamb\u00e9m\u00a0 deveria ser aplicada a fen\u00f4menos sociais e psicol\u00f3gicos. Nascia o objetivismo o qual pressupunha que determinados fen\u00f4menos psicol\u00f3gicos e sociais como intelig\u00eancia e coes\u00e3o social, s\u00e3o propriedades externas, independentes e que existem separadas de nossa representa\u00e7\u00e3o mental. E por isto podem ser mensuradas de forma concreta, ou objetiva.<\/p>\n<p>No outro extremo de an\u00e1lise, \u00a0o construtivismo contrapunha-se ao objetivismo ao propor que \u00a0a natureza dos fen\u00f4menos sociais n\u00e3o \u00e9 externa ao nosso pensamento. Isso significa que a realidade n\u00e3o \u00e9 independente nem externa. Longe disto, a realidade \u00e9 considerada antes de tudo, uma constru\u00e7\u00e3o mental que depende do observador e do contexto do seu objeto. Assim, sentimentos como \u00f3dio, felicidade ou feminilidade n\u00e3o s\u00e3o externas ao observador, nem muito menos imut\u00e1veis, mas s\u00e3o inerentes \u00e0 perspectiva de observador, o meio na qual existem e n\u00e3o podem ser objetivamente definidas. A cultura seria o instrumento capaz de perceber e dotar de \u00a0significado a tais propriedades. Cada uma delas depende da cultura na qual est\u00e3o inseridas, do grupo social que o observador faz parte, e s\u00f3 podem ser entendidas dentro do seu tempo \u00a0hist\u00f3rico espec\u00edfico e, mais, elas afetam o observador talvez do mesmo modo que s\u00e3o produzidas.<\/p>\n<p>Dito isto, pode-se inferir da\u00ed que a nossa realidade psicol\u00f3gica e social \u00e9 constru\u00edda, subjetiva, indefinida, e que, portanto seria dif\u00edcil obtermos algum tipo conhecimento sobre ela. Para resolver esta equa\u00e7\u00e3o, surgiram algumas posi\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas que tentavam analisar a posi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica do construtivismo: a hermen\u00eautica, fenomenologia e a verstehen (compreens\u00e3o), a estas vis\u00f5es chamamos de interpretativ\u00edssimo. Essas vis\u00f5es interpretativistas presumem que a experi\u00eancia de um pesquisador ou a observa\u00e7\u00e3o de um fen\u00f4meno social podem ser muito diferentes de como as pessoas que est\u00e3o envolvidas no fen\u00f4meno social o percebem, por isto, o pesquisador deveria se focam em compreender \u00a0o fen\u00f4meno do ponto de vista das pessoas que est\u00e3o envolvidas naquela situa\u00e7\u00e3o. Como elas diferem levemente entre si, precisamos analisar com mais vagar cada uma em separado para que possamos perceber a din\u00e2mica de cada uma e o seu uso metodol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A \u201chermen\u00eautica\u201d tem o seu termo derivado da teologia e refere-se \u00e0 forma correta de se interpretar as escrituras retirando-se o sentido do texto e levando e conta o contexto no qual ele est\u00e1 inserido. J\u00e1 a hermen\u00eautica, agora aplicada \u00e0s Ci\u00eancias Sociais, procura explicar fen\u00f4menos sociais interpretando os comportamentos dos indiv\u00edduos dentro do contexto social no qual est\u00e3o inseridos. Em outras palavras, o Pesquisador precisa levar em considera\u00e7\u00e3o a vis\u00e3o de mundo do observado e procurar e entender que suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Fenomenologia parte do pressuposto de que as pessoas n\u00e3o s\u00e3o objetos inertes, elas interagem com o mundo redor, pensam, sentem e percebem-se. Em contrapartida, elas esta din\u00e2mica influencia suas a\u00e7\u00f5es e altera as suas percep\u00e7\u00f5es. Por isto, \u00a0para que possamos compreender suas a\u00e7\u00f5es, \u00e9 necess\u00e1rio que investiguemos o significado que elas aplicam aos fen\u00f4menos que elas experimentam. Em \u00faltima an\u00e1lise seria investigar o mundo da perspectiva delas e n\u00e3o do observador. \u00c9 preciso que o pesquisador se dispa de suas vis\u00f5es e par\u00e2metros para poder alcan\u00e7ar tais experi\u00eancias do ponto de vista do observado.<\/p>\n<p>Verstehen que significa no alem\u00e3o \u201ccompreens\u00e3o\u201d \u00e9 mais associada a Max Weber. Verstehen refere-se ao entendimento emp\u00e1tico de fen\u00f4menos sociais. Segundo o soci\u00f3logo alem\u00e3o, o observador \u00a0precisa assumir a perspectiva dos seu observado para ent\u00e3o poderem interpretar como eles veem o mundo. Para Weber, somente \u00a0desta forma o pesquisador, ent\u00e3o, \u00a0poderia tentar explicar as suas a\u00e7\u00f5es dos homens dentro de seu meio social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Annemarie z. Scholten h\u00e1 alguns problemas nestas \u00a0vis\u00f5es construtivistas interpretativistas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Segundo ela, h\u00e1 um problema de \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o estratificada\u201d. Ou seja, em primeiro momento, o pesquisador interpreta as interpreta\u00e7\u00f5es dos objetos, depois, ele interpreta as constata\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a uma abordagem ou a uma teoria. Com cada camada adicional de interpreta\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais chances de equ\u00edvocos. Um segundo problema seria o fato de que fica muito dif\u00edcil se comparar os dados obtidos, pois n\u00e3o existem par\u00e2metros uma vez que cada objeto s\u00f3 pode ser interpretado dentro de cada cultura espec\u00edfica. Por exemplo, no caso da felicidade, como compar\u00e1-la? Se a felicidade \u00e9 subjetiva e significa coisas diferentes em culturas diferentes, simplesmente n\u00e3o podemos compar\u00e1-las. N\u00e3o existe, neste caso, a possibilidade de se criar teorias gerais ou explica\u00e7\u00f5es universais que se apliquem a variados grupos sociais e em \u00a0per\u00edodos de tempo particulares.<\/p>\n<p>Um terceiro problema \u00e9 a diferen\u00e7a na estrutura de refer\u00eancia. Se a estrutura de refer\u00eancia do pesquisador \u00e9 muito diferente, pode ser dif\u00edcil para o pesquisador tomar o ponto de vista do objeto. Isso torna dif\u00edcil de descobrir quais os aspectos relevantes do contexto social. A vis\u00e3o construtivista-interpretativista \u00e9 normalmente associada \u00e0 abordagem <strong>qualitativa<\/strong> da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso implica em dizer que as observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas atrav\u00e9s de entrevistas n\u00e3o muito estruturadas ou observa\u00e7\u00e3o participativa, nas quais o pesquisador se torna parte de um grupo para observ\u00e1-lo. Os dados s\u00e3o obtidos da pesquisa. Os dados s\u00e3o analisados qualitativamente por interpreta\u00e7\u00e3o de texto ou material gravado. Em contraste, a vis\u00e3o objetivista-positivista est\u00e1 associada com m\u00e9todos de pesquisa <strong>quantitativos<\/strong>. Observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o coletadas, que podem ser contadas ou mensuradas, para que os dados possam ser agregados sobre muitos objetos de pesquisa.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que os objetos representem um grupo muito maior, possivelmente apoiando uma explica\u00e7\u00e3o universal. E os dados s\u00e3o analisados utilizando t\u00e9cnicas estat\u00edsticas quantitativas. Apesar de uma abordagem qualitativa ser normalmente associada com uma vis\u00e3o construtivista da ci\u00eancia e uma abordagem quantitativa com uma vis\u00e3o objetivista, n\u00e3o h\u00e1 motivo para nos limitarmos somente a um m\u00e9todo qualitativo ou quantitativo. \u00c9 o que \u00a0Scholten assevera e eu concordo. Ambas abordagens t\u00eam suas vantagens e desvantagens.<\/p>\n<p>Para algumas quest\u00f5es de pesquisa, uma abordagem qualitativa \u00e9 melhor. Em outros casos, uma abordagem quantitativa \u00e9 mais apropriada. Na verdade, uma abordagem de m\u00e9todo misto, onde ambos m\u00e9todos s\u00e3o usados para complementar o outro est\u00e1 constantemente ganhando popularidade.<\/p>\n<p>Recentemente, eu mesmo pude realizar junto aos alunos do curso de Educa\u00e7\u00e3o do Campo, pudemos fazer uma pesquisa de cunho quantitativa-qualitativa em que mesclamos question\u00e1rio de pesquisa sobre condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e textos e trabalhos sobre a hist\u00f3ria e vida dos quilombolas em Cruzeirinho de cima<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. o trabalho demonstrou que \u00e9 poss\u00edvel mesclar diferentes tipos de m\u00e9todos, sem cair nas armadilhas extremistas do positivismo, t\u00e3o j\u00e1 ultrapassado, ao menos nas ci\u00eancias sociais e um certo construtivismo interpretativo que nos impe\u00e7a de fazer uma an\u00e1lise mais coerente com a realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bibliografia<\/p>\n<p><strong>\u00a0SCHOLTEN, Annemarie Zand. Quantitative Methods.\u00a0<\/strong><em style=\"font-weight: inherit\"><strong>Coursera.org<\/strong><\/em><strong>, Jan. 2018 \/ Mai. 2018.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> J\u00falio C\u00e9sar Medeiros da S. Pereira \u00e9 Dr. Em Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia e da Sa\u00fade pela Fiocruz e professor Adjunto de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF. Tamb\u00e9m atua como pesquisador no Instituto de Pesquisa e Mem\u00f3ria Pretos Novos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> https:\/\/ctsflavio.files.wordpress.com\/2016\/02\/a-m-scholten-origins.pdf<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.sankofa.periodikos.com.br\/article\/5c7edc480e8825a030016ca8\">http:\/\/www.sankofa.periodikos.com.br\/article\/5c7edc480e8825a030016ca8<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode baixar este artigo clicando em:<\/p>\n<a href=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/?ddownload=417\" title=\"As origens do M\u00e9todo Ci\u00eantifico Moderno e suas abordagens\" rel=\"nofollow\" class=\"ddownload-button button-blue id-417 ext-pdf\">As origens do M\u00e9todo Ci\u00eantifico Moderno e suas abordagens<\/a>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por: J\u00falio C\u00e9sar Medeiros da S. 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