{"id":544,"date":"2020-09-16T11:11:35","date_gmt":"2020-09-16T14:11:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/?p=544"},"modified":"2020-10-16T10:00:58","modified_gmt":"2020-10-16T13:00:58","slug":"morte-e-sobrevivencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2020\/09\/16\/morte-e-sobrevivencia\/","title":{"rendered":"MORTE E SOBREVIV\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"\n<p> <br> <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table class=\"\"><tbody><tr><td>\n  \n  \n  \n  <strong><em>Doen\u00e7as at\u00e9 ent\u00e3o\n  desconhecidas, como mal\u00e1ria e febre amarela, dizimaram a popula\u00e7\u00e3o nativa em\n  menos de um s\u00e9culo, exigindo ajustes econ\u00f4micos e sociais que levariam \u00e0\n  cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade multi\u00e9tnica no continente<\/em><\/strong>\n  \n  \n  \n  <\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p><br> <br> <strong>por Kennet h Maxwell<\/strong><br> <br> <strong>U<\/strong>ma das consequ\u00eancias imprevistas do contato intercontinental e da comunica\u00e7\u00e3o mar\u00edtima iniciada por Colombo em 1492 foi a chegada de doen\u00e7as do Velho Mundo que atacaram os habitantes nativos do Novo Mundo, que n\u00e3o tinham imunidade. As plan\u00edcies tropicais do Caribe e das Am\u00e9ricas do Norte e do Sul sofreram um virtual despovoamento em menos de tr\u00eas quartos de s\u00e9culo. O istmo do Panam\u00e1, onde os primeiros espanh\u00f3is encontraram diversos assentamentos pr\u00f3speros, transformou-se virtualmente num descampado vazio e pestilento. David Browning estima que em Honduras a popula\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 conquista, de 1,2 milh\u00e3o, havia ca\u00eddo para 18 mil em 1590. O decl\u00ednio no Peru tamb\u00e9m foi grave. A popula\u00e7\u00e3o do Peru na \u00e9poca da chegada de Pizarro foi estimada por Noble David Cook em cerca de 9 milh\u00f5es. No meio s\u00e9culo seguinte a popula\u00e7\u00e3o diminuiu para pouco mais de 1 milh\u00e3o e, em 1620, havia ca\u00eddo para 600 mil. A diminui\u00e7\u00e3o geral foi de 93% no s\u00e9culo seguinte ao primeiro contato entre os europeus e os habitantes ind\u00edgenas. A popula\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico, que de acordo com alguns estudiosos poderia ter chegado a 22 milh\u00f5es em 1519, ca\u00edra para cerca de 1 milh\u00e3o em 1600. Os historiadores demogr\u00e1ficos pioneiros Woodrow Borah e Sherbourne Cook afirmaram que seis s\u00e9timos da popula\u00e7\u00e3o total havia sido extinta entre 1519 e 1605, de modo que por volta de 1620-25 a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena era de 3% do que havia sido em 1519. Embora os acad\u00eamicos ainda discutam os n\u00fameros, \u00e9 evidente que as primeiras d\u00e9cadas do assentamento europeu foram um desastre para a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. A cat\u00e1strofe demogr\u00e1fica no continente americano repetiu o padr\u00e3o do Caribe, cuja popula\u00e7\u00e3o pr\u00e9-colombiana estava virtualmente extinta em 1550. Mas n\u00e3o completamente.<\/p>\n\n\n\n<p> Houve altera\u00e7\u00f5es vitais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia caribenha. Nas terras baixas tropicais, assim como nas ilhas do Caribe, muitos grupos ind\u00edgenas morreram antes de conseguir criar imunidade. Mas, nos ambientes mais elevados e frios, onde doen\u00e7as africanas como a mal\u00e1ria e a febre amarela n\u00e3o se disseminaram, a perda foi menos extensa, e por isso foram poss\u00edveis uma sobreviv\u00eancia residual e uma eventual recupera\u00e7\u00e3o. Os altiplanos peruanos e bolivianos, \u00e9 claro, mant\u00eam ainda hoje uma vibrante popula\u00e7\u00e3o e cultura ind\u00edgenas. O professor Noble David Cook afirma que a altitude da puna andina talvez explique em parte essa resist\u00eancia. &#8220;O &#8220;soroche&#8221;, o mal-estar da altitude, normalmente afeta os habitantes de locais ao n\u00edvel do mar que se aventuram nos planaltos&#8221;, ele aponta. Os ind\u00edgenas dos Andes sobrevivem devido a sua grande capacidade pulmonar, uma elevada taxa de c\u00e9lulas vermelhas no sangue e um grande volume de mioglobina nos m\u00fasculos. Essa forte adapta\u00e7\u00e3o ao ambiente n\u00e3o ocorria com os estrangeiros, e consequentemente os qu\u00e9chuas e aimaras n\u00e3o foram deslocados nem se miscigenaram com os invasores. Os professores Sherbourne Cook e Woodrow Borah tamb\u00e9m demonstraram que na Mesoam\u00e9rica os \u00edndices de sobreviv\u00eancia entre as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas foram maiores nos planaltos que no litoral. O ponto-chave de uma perspectiva de longo prazo \u00e9 o de que no interior o colapso demogr\u00e1fico da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no hemisf\u00e9rio ocidental n\u00e3o foi total. A sobreviv\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas \u00e9 de profunda import\u00e2ncia para o futuro da Am\u00e9rica Latina. Nas ilhas do Caribe e nas terras litor\u00e2neas, o virtual exterm\u00ednio das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas foi seguido da introdu\u00e7\u00e3o de planta\u00e7\u00f5es de produtos alimentares, com trabalho de escravos africanos. Uma sequ\u00eancia semelhante se desdobraria mais tarde no litoral do Brasil. Com efeito, ao longo do tempo ocorreu uma substitui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Os padr\u00f5es raciais e sociais nessas regi\u00f5es seriam profundamente marcados pelo desenvolvimento de planta\u00e7\u00f5es com m\u00e3o-de-obra escrava, predominantemente de cana-de-a\u00e7\u00facar, e influ\u00eancias africanas. Elas reproduziam os padr\u00f5es estabelecidos no primitivo sistema afro-atl\u00e2ntico nas ilhas da Madeira, Cabo Verde e S\u00e3o Tom\u00e9 e continuariam a faz\u00ea-lo at\u00e9 o s\u00e9culo 19, em termos de sua participa\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio de escravos, na agricultura monocultural voltada para a exporta\u00e7\u00e3o e na escravid\u00e3o africana. Mas nos planaltos a composi\u00e7\u00e3o racial da popula\u00e7\u00e3o refletiu a extens\u00e3o da sobreviv\u00eancia amer\u00edndia, e aqui, com o tempo, surgiria uma civiliza\u00e7\u00e3o h\u00edbrida indo-europ\u00e9ia.<br> <br> <strong>Pecu\u00e1ria x agricultura<\/strong><br> Em todo o M\u00e9xico e Am\u00e9rica Central, assim como no Caribe, a doen\u00e7a n\u00e3o foi o \u00fanico fator de ruptura da sociedade ind\u00edgena. O gado do Velho Mundo introduzido nas Am\u00e9ricas pelos primeiros colonos espanh\u00f3is tamb\u00e9m competiu com a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena por alimento e espa\u00e7o, danificando as planta\u00e7\u00f5es de milho e feij\u00e3o e devastando as pastagens. Os animais trazidos do Velho Mundo pelos espanh\u00f3is perturbaram seriamente o equil\u00edbrio entre a popula\u00e7\u00e3o e o suprimento alimentar, especialmente na Mesoam\u00e9rica, onde o milho era o produto b\u00e1sico.<br> Depois da conquista, ocorreu uma explos\u00e3o populacional entre o gado, porcos, carneiros e cabras, os quais causaram grandes danos \u00e0s planta\u00e7\u00f5es de milho ind\u00edgenas, que n\u00e3o eram protegidas devido \u00e0 falta de experi\u00eancia com concorrentes pela subsist\u00eancia. As medidas tomadas pela popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena eram muitas vezes ineficazes. O sistema de valor dos conquistadores favorecia o gado. Bois e carneiros eram protegidos pela lei, os costumes e o sentimento castelhanos. As leis que protegiam a pecu\u00e1ria na pen\u00ednsula Ib\u00e9rica foram exportadas para o M\u00e9xico e permitiam que o gado pastasse em propriedade alheia depois da colheita. E os animais destruidores eram, afinal, propriedade dos vitoriosos; a agricultura era prov\u00edncia dos derrotados.<br> Os animais europeus, assim como a doen\u00e7a, muitas vezes precederam e acompanharam os colonizadores espanh\u00f3is; e sua chegada, especialmente no M\u00e9xico, transformou e hispanizou a paisagem. Sherbourne Cook argumentou que o gado inicialmente se expandiu at\u00e9 os limites da subsist\u00eancia, e o resultante excesso de pastejo, atrav\u00e9s do qual destru\u00edram seus pr\u00f3prios meios de sustento, transformou regi\u00f5es outrora f\u00e9rteis em terras \u00e1ridas e semidesertas. O resultado foi uma revolu\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, exagerando e completando o processo que o uso intensivo da terra e as vastas popula\u00e7\u00f5es haviam iniciado no per\u00edodo pr\u00e9-colombiano. A eros\u00e3o do solo foi agravada pela introdu\u00e7\u00e3o do arado europeu e pelo desflorestamento generalizado para suprir a demanda de fabrica\u00e7\u00e3o de cal e de combust\u00edvel para as fornalhas usadas para fundir metais preciosos.<br> O ritmo de redu\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es nativas, segundo c\u00e1lculos de Borah e Cook, parece ter-se estabilizado por volta de 1565 no planalto e, na regi\u00e3o costeira, por volta de 1573. O encolhimento da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena continuou at\u00e9 meados do s\u00e9culo 17, mas em ritmo muito menor. O ponto baixo da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no M\u00e9xico foi por volta de 1620-25, quando, na estimativa de Sherbourne Cook e Borah, o n\u00famero de ind\u00edgenas caiu para 730 mil. Noble David Cook situa o ponto mais baixo para o Peru na d\u00e9cada de 1620.<br> O dist\u00farbio biol\u00f3gico e ecol\u00f3gico inexor\u00e1vel resultante da chegada de europeus e africanos, suas doen\u00e7as e animais, no entanto, com o tempo tamb\u00e9m minou o sistema de controle imposto pelos conquistadores: o sistema de &#8220;encomienda&#8221;, cuja base essencial era a maci\u00e7a for\u00e7a de trabalho ind\u00edgena. Inicialmente, o sistema de &#8220;encomienda&#8221; teve um extraordin\u00e1rio sucesso logo ap\u00f3s a conquista, sustentando a sociedade urbana espanhola em meio \u00e0s grandes popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Ele tamb\u00e9m permitiu que os espanh\u00f3is no Novo Mundo acumulassem capital com o qual puderam financiar o desenvolvimento nas Am\u00e9ricas sem recorrer a credores europeus.<br> O decl\u00ednio geral da import\u00e2ncia econ\u00f4mica da &#8220;encomienda&#8221; variou consideravelmente de regi\u00e3o para regi\u00e3o, em ritmo e extens\u00e3o, mas a causa fundamental desse recuo foi a ruptura demogr\u00e1fica e ecol\u00f3gica e a contra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o da sociedade amer\u00edndia.<br> Durante as d\u00e9cadas de 1560 e 1570 a estabiliza\u00e7\u00e3o do \u00edndice de decl\u00ednio populacional entre os amer\u00edndios provocou uma s\u00e9rie de ajustes econ\u00f4micos e administrativos na Am\u00e9rica espanhola, de import\u00e2ncia fundamental para o futuro. A doen\u00e7a e a altera\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica tamb\u00e9m minaram seriamente a hierarquia ind\u00edgena local necess\u00e1ria para mobilizar as massas ind\u00edgenas para os senhores espanh\u00f3is. Esses desenvolvimentos n\u00e3o foram acontecimentos repentinos que geraram relacionamentos totalmente novos. Foram sobretudo um processo em que os elementos que haviam sido perif\u00e9ricos enquanto existira uma ampla popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena com o tempo tenderam a tornar-se centrais.<br> O gradativo ajuste social e econ\u00f4mico ao decl\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena alterou profundamente o relacionamento entre ind\u00edgenas e europeus no Novo Mundo, modificou os padr\u00f5es de propriedade da terra, transformou a vida interna social e cultural das comunidades ind\u00edgenas e influenciou a maneira como a administra\u00e7\u00e3o real operou em n\u00edvel local em toda a Am\u00e9rica espanhola. Foi, de modo geral, um processo que transformou o governo indireto em direto e possibilitou a cria\u00e7\u00e3o gradativa de uma sociedade multi\u00e9tnica, mesti\u00e7a, enraizada nas Am\u00e9ricas.<br> Os espanh\u00f3is na Am\u00e9rica poderiam facilmente ter permanecido como os senhores coloniais europeus na \u00c1sia e na \u00c1frica, mais tarde uma elite estrangeira superficial e imposta; uma classe dominante tempor\u00e1ria de forasteiros permanentes. Nessas circunst\u00e2ncias, quando a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena recuperasse a autoconfian\u00e7a ou a pot\u00eancia imperial europ\u00e9ia se enfraquecesse devido a envolvimentos ou decl\u00ednio, essa presen\u00e7a estrangeira poderia ter sido expulsa, como ocorreu posteriormente com os colonizadores europeus na \u00c1sia e em grande parte da \u00c1frica.<br> Mas n\u00e3o foi o que aconteceu nas Am\u00e9ricas. A peculiar hist\u00f3ria demogr\u00e1fica do colonialismo europeu no hemisf\u00e9rio ocidental foi criar uma nova sociedade multirracial crioula, permanentemente enraizada no Novo Mundo. Esse resultado extraordin\u00e1rio ocorreu cumulativamente ao longo do tempo e com muitas nuan\u00e7as regionais e locais, mas as mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas que a possibilitaram ocorreram com relativa rapidez.<br> A cat\u00e1strofe demogr\u00e1fica que assolou a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena teve um impacto imediato sobre as rela\u00e7\u00f5es dos colonos espanh\u00f3is com a terra, algo que teve interesse m\u00ednimo ou perif\u00e9rico para eles enquanto existiu uma vasta popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena.<br> <br> <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"408\" src=\"http:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2020\/09\/300px-Brazil-16-map.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-549\" srcset=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2020\/09\/300px-Brazil-16-map.jpg 300w, https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2020\/09\/300px-Brazil-16-map-221x300.jpg 221w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"350\" height=\"290\" src=\"http:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2020\/09\/imagem3-22.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-548\" srcset=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2020\/09\/imagem3-22.jpg 350w, https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2020\/09\/imagem3-22-300x249.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table class=\"\"><tbody><tr><td>\n  \n  \n  \n  <strong><em>\u00c0 medida que a\n  popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena diminu\u00eda, se tornava cada vez mais problem\u00e1tico garantir o\n  suprimento alimentar em base regular<\/em><\/strong>\n  \n  \n  \n  <\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p><br> <br> Os espanh\u00f3is no M\u00e9xico e no Peru tentaram desde o in\u00edcio recriar no hemisf\u00e9rio ocidental um estilo de vida europeu e, para tanto, introduziram trigo, uvas, \u00e1rvores frut\u00edferas europ\u00e9ias. No entanto isso s\u00f3 se tornou uma perspectiva comercialmente vi\u00e1vel quando o trabalho ind\u00edgena deixou de fornecer alimento suficiente para manter os centros urbanos adequadamente abastecidos. Mas, \u00e0 medida que a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena diminu\u00eda, se tornava cada vez mais problem\u00e1tico garantir o suprimento alimentar em base regular. No M\u00e9xico central, por exemplo, o pre\u00e7o do milho triplicou entre 1520 e 1573, e de 1542 a 1573 o pre\u00e7o do trigo subiu num ritmo ainda mais acelerado. O aumento dos pre\u00e7os dos alimentos, a crescente demanda urbana, a falta de sucesso em persuadir os ind\u00edgenas a cultivar o trigo (o que n\u00e3o \u00e9 de surpreender, dada a import\u00e2ncia do milho na vida cultural do ind\u00edgena e o fato de que o rendimento do trigo era substancialmente menor que o do milho), tudo isso tornou necess\u00e1ria e cada vez mais rent\u00e1vel a opera\u00e7\u00e3o de fazendas de propriedade dos espanh\u00f3is diretamente administradas por eles, nos arredores de Lima e da Cidade do M\u00e9xico. O problema de garantir uma for\u00e7a de trabalho suficiente para as propriedades espanholas no vale do M\u00e9xico enquanto a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena encolhia levou as autoridades espanholas a intervir diretamente na distribui\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra coagida. Em 1560, por exemplo, na regi\u00e3o da Cidade do M\u00e9xico, 2.400 ind\u00edgenas eram distribu\u00eddos semanalmente entre 114 plantadores de trigo espanh\u00f3is. Em breve o processo de distribui\u00e7\u00e3o, frequentemente baseado em prot\u00f3tipos pr\u00e9-colombianos e sob uma variedade de nomes (&#8220;repartimiento&#8221; ou &#8220;cuatequil&#8221; no M\u00e9xico, &#8220;mita&#8221; no Peru, &#8220;mandamiento&#8221; na Guatemala e &#8220;minga&#8221; no Equador), tornou-se um importante meio de recrutamento de trabalho for\u00e7ado em toda a Am\u00e9rica espanhola.<br> <br> <strong>Novo ambiente<\/strong><br> A transi\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o de trigo em grande escala no vale do M\u00e9xico ocorreu entre 1563 e 1602, e entre 1580 e 1630 tamb\u00e9m se desenvolveu a produ\u00e7\u00e3o de trigo em grande escala nas propriedades rurais espanholas. O aumento de empreendimentos agr\u00edcolas teve consequ\u00eancias importantes. Ele levou a terra para a propriedade privada. A palavra &#8220;hacienda&#8221;, anteriormente um termo gen\u00e9rico para &#8220;propriedade&#8221;, assumiu novo significado na Am\u00e9rica espanhola, como uma &#8220;entidade econ\u00f4mica geradora de produtos agr\u00edcolas ou gado para o mercado&#8221;. O t\u00edtulo da terra era obtido pelos espanh\u00f3is por concess\u00e3o direta (&#8220;merced&#8221;) de terras &#8220;desocupadas&#8221; ou por meio de aquisi\u00e7\u00e3o do cacique ou da comunidade ind\u00edgena. Quando a terra era ilegalmente usurpada de territ\u00f3rio ind\u00edgena, a coroa mais tarde regularizava as invas\u00f5es atrav\u00e9s de um pagamento, pelo qual os espanh\u00f3is obtinham o t\u00edtulo legal (&#8220;composici\u00f3n&#8221;). Em 1620, um ter\u00e7o do vale do M\u00e9xico tinha passado \u00e0 propriedade de espanh\u00f3is, representando mais da metade da terra agr\u00edcola utiliz\u00e1vel da regi\u00e3o. O crescimento da propriedade rural (&#8220;hacienda&#8221;) na Am\u00e9rica espanhola levou os ind\u00edgenas e os espanh\u00f3is a um novo relacionamento, colocando o ind\u00edgena assim empregado num ambiente onde predominavam os costumes europeus. A import\u00e2ncia social dessa nova estrutura de relacionamento foi ampla e atraiu muitos dos que haviam sa\u00eddo das comunidades ind\u00edgenas para um novo ambiente social e econ\u00f4mico. A &#8220;hacienda&#8221;, assim como a cidade, tamb\u00e9m forneceu um habitat para a crescente popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a de ascend\u00eancia indo-europ\u00e9ia. A &#8220;hacienda&#8221; distribu\u00eda sua for\u00e7a de trabalho de duas maneiras: como uma equipe permanente ligada \u00e0 propriedade pelo pagamento de sal\u00e1rios, que muitas vezes com o tempo se tornava uma forma de servid\u00e3o por d\u00edvida, ou como agricultores de subsist\u00eancia dispersos, vivendo em pequenas \u00e1reas da terra da &#8220;hacienda&#8221;.<br> <br> <strong>Processo discreto<\/strong><br> Embora intensamente cultivados, esses minif\u00fandios n\u00e3o produziam excedente suficiente para evitar que os pequenos agricultores de subsist\u00eancia buscassem emprego com o fazendeiro. As planta\u00e7\u00f5es que eles produziam tinham a vantagem, por\u00e9m, de aliviar o fazendeiro da despesa de sustentar uma for\u00e7a de trabalho totalmente composta de assalariados. O relacionamento entre a &#8220;hacienda&#8221; e os agricultores de subsist\u00eancia era, portanto, simbi\u00f3tico.<br> O pequeno agricultor fornecia trabalho extra na \u00e9poca da colheita, e o terreno de subsist\u00eancia sustentava sua fam\u00edlia durante o resto do ano, quando o trabalho era escasso. O fazendeiro ficava livre da despesa de sustentar uma grande m\u00e3o-de-obra permanente, que em muitos casos teria tornado n\u00e3o-rent\u00e1vel a opera\u00e7\u00e3o da fazenda. Mesmo quando as fazendas se envolveram numa produ\u00e7\u00e3o semiindustrial, como na Am\u00e9rica Central, no processamento de tintura \u00edndigo, distribu\u00edram sua terra para meeiros e arrendat\u00e1rios (&#8220;colonos&#8221;) dessa maneira.<\/p>\n\n\n\n<p><br> O tributo e o controle do trabalho foram preferidos nos primeiros anos ap\u00f3s a conquista, e a &#8220;encomienda&#8221; n\u00e3o envolvia a propriedade da terra. Mas, com a desastrosa redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, essa situa\u00e7\u00e3o mudou. A propriedade espanhola surgiu assim em resposta \u00e0 mudan\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es de mercado e refletiu uma mudan\u00e7a de parte dos espanh\u00f3is, afastando-se de um sistema de domina\u00e7\u00e3o indireto para um de empreendimentos diretamente administrados. A evolu\u00e7\u00e3o da propriedade da terra espanhola foi um processo discreto, portanto, separado da &#8220;encomienda&#8221; da gera\u00e7\u00e3o da conquista. Alguns &#8220;encomenderos&#8221; podiam estabelecer a propriedade direta da terra nas regi\u00f5es das quais obtinham tributo ou servi\u00e7os, \u00e9 claro. Certamente eles estavam numa posi\u00e7\u00e3o que permitia faz\u00ea-lo.<br> Mas o processo em geral foi de consolida\u00e7\u00e3o de uma presen\u00e7a europ\u00e9ia assentada permanentemente no campo e uma amplia\u00e7\u00e3o e um aprofundamento da implanta\u00e7\u00e3o do hispano-americano nas Am\u00e9ricas. A propriedade rural espanhola, portanto, surgiu para suprir condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas -a necessidade de fornecer produtos para um mercado que o setor ind\u00edgena n\u00e3o era mais capaz de suprir, e seu desenvolvimento tornou-se poss\u00edvel pela disponibilidade de terras que resultou da ruptura e da contra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena.<br> Nas regi\u00f5es de altiplano na Am\u00e9rica espanhola, do M\u00e9xico \u00e0s Am\u00e9ricas Central e do Sul, por\u00e9m, a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena em 1600 ainda era maioria. O que mudou completamente no primeiro s\u00e9culo da coloniza\u00e7\u00e3o foi a rela\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica entre os ind\u00edgenas e os europeus que se assentaram entre eles.<br> Os ind\u00edgenas permaneceram o componente b\u00e1sico da for\u00e7a de trabalho hispano-americana durante todo o per\u00edodo colonial, mas sua vulnerabilidade e explora\u00e7\u00e3o aumentaram drasticamente em consequ\u00eancia do decl\u00ednio demogr\u00e1fico. E, enquanto n\u00e3o se pode minimizar a extens\u00e3o da desmoraliza\u00e7\u00e3o, ruptura e destrui\u00e7\u00e3o que assolaram a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena das Am\u00e9ricas ap\u00f3s a conquista, o fato importante foi a sobreviv\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o nativa. A longo prazo, isso n\u00e3o seria menos importante para o futuro do que a tr\u00e1gica hist\u00f3ria de morte e decl\u00ednio dos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"239\" src=\"http:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2020\/09\/imagem3-21-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-553\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Kenneth Maxwell<\/strong>&nbsp;\u00e9 historiador ingl\u00eas e um dos principais\nbrasilianistas da atualidade. \u00c9 autor de &#8220;A Devassa da Devassa&#8221; e\n&#8220;Marqu\u00eas de Pombal &#8211; Paradoxo do Iluminismo&#8221; (ambos pela ed. Paz e Terra).\nEscreve regularmente no Mais!.<br>\nTradu\u00e7\u00e3o de&nbsp;<strong>Luiz Roberto Mendes Gon\u00e7alves<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Texto publicado originalmente em: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/mais\/fs1108200206.htm%20acessado%20em%2004\/04\/2020\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/mais\/fs1108200206.htm acessado em 04\/04\/2020<\/a> <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">CONCEITOS TRABALHADOS NO TEXTO<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>MITA OU REPARTIMIENTO:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Importante modo de recrutamento de trabalho ind\u00edgena, assalariado, por\u00e9m, for\u00e7ado, usado na Am\u00e9rica Espanhola.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>HHACIENDA:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Latif\u00fandios, gestados por colonos, em terras usurpadas dos ind\u00edgenas, cuja produ\u00e7\u00e3o era voltada para o  milho e agropecu\u00e1ria, cuja m\u00e3o de obra era suprida pela Mita. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kennet Maxwll descreve o encontro entre a cultura europ\u00e9ia e a amer\u00edndia e  a morte e o sofrimento trazidos no Velho Mundo<\/p>\n","protected":false},"author":209,"featured_media":545,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[135,134,136],"class_list":["post-544","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria","tag-historia-indigena","tag-indigenas","tag-kennet-maxweel"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/544","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/users\/209"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=544"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/544\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":547,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/544\/revisions\/547"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/media\/545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=544"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=544"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=544"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}