{"id":755,"date":"2021-10-21T18:45:31","date_gmt":"2021-10-21T21:45:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/?p=755"},"modified":"2022-06-17T19:22:13","modified_gmt":"2022-06-17T22:22:13","slug":"o-desenvolvimento-do-estudo-da-arte-africana-e-os-seus-impactos-sobre-a-arte-europeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2021\/10\/21\/o-desenvolvimento-do-estudo-da-arte-africana-e-os-seus-impactos-sobre-a-arte-europeia\/","title":{"rendered":"O desenvolvimento do Estudo da Arte Africana e os seus impactos sobre a arte europeia"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cSe a humanidade teve origem em \u00c1frica, \u00e9 poss\u00edvel que tamb\u00e9m ali tenha surgido a arte.\u201d<\/p><cite>Frank Willet, Arte Africana,  2017. <\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Frank Willett (1925 \u2013 2006), estudioso da considerado pela\ncr\u00edtica especializada mundial autor da melhor introdu\u00e7\u00e3o geral \u00e0 arte africana.\n&nbsp;Desde que lan\u00e7ou a sua obra: Arte Africana,\nem 1971, seu trabalho tem contribu\u00eddo de forma singular para com estudo da arte\ndeste continente antes t\u00e3o mal compreendido. &nbsp;&nbsp;Nela, Willett\nutiliza uma linguagem acess\u00edvel, desconstruindo velhos estere\u00f3tipos e estimulando-nos\nna busca pelo aprofundamento do conhecimento de \u00c1frica atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o\nart\u00edstica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Neste breve artigo, farei um breve resumo da obra, para aqueles que quiserem conhecer mais o trabalho deixando minhas impress\u00f5es e coment\u00e1rios, que poder\u00e3o ser uteis aqueles de alguma forma, como algum tipo de apontamento. Fica claro que, nossa contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda muito modesta perto do tamanho da obra e n\u00e3o se prop\u00f5e a esgotar o tema, muito menos se coloca como uma an\u00e1lise exaustiva de um livro t\u00e3o profundo quanto denso, um feito que demandaria uma pesquisa mais aprofundada e devidamente apresentada em c\u00edrculos acad\u00eamicos voltados para esta discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide\" style=\"grid-template-columns:57% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"512\" src=\"http:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/15115618145a189a56a92b4_1511561814_3x2_md.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-758\" srcset=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/15115618145a189a56a92b4_1511561814_3x2_md.jpg 768w, https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/15115618145a189a56a92b4_1511561814_3x2_md-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/15115618145a189a56a92b4_1511561814_3x2_md-120x80.jpg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">  Pelo contr\u00e1rio, este texto se coloca apenas como breve introdu\u00e7\u00e3o, deixada aos meus alunos e colegas que, como eu, amam o continente africano e tudo o que ele produz. Espero que seja de algum proveito. Sendo assim, vamos as minhas observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Artefato africano, sem identifica\u00e7\u00e3o do autor, em exposi\u00e7\u00e3o no Museu Afro Brasil, em S\u00e3o Paulo  <\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Neste texto, iremos analisar apenas o cap\u00edtulo 2, por\nentender que seria aquele que melhor sintetizaria a forma como educadores e\nprofessores de Hist\u00f3ria da \u00c1frica poderiam aproveitar suas contribui\u00e7\u00f5es acrescentando\nas suas aulas, uma vis\u00e3o inovadora e crucial para quebrar os preconceitos ainda\nexistente em sala de aula em torno da arte produzida pelos africanos e as suas\ncontribui\u00e7\u00f5es para o mundo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Para produzir estas impress\u00f5es, n\u00e3o apenas estudei o trabalho\nde Willet, quanto busquei me aprofundar no assunto, pesquisando e buscando\ninforma\u00e7\u00f5es com especialistas como o professor &#8230;. cuja agrad\u00e1vel conversa, nos\nrendeu um podcast, que tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel nas plataformas digitais bem como\nneste meu site. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide\" style=\"grid-template-columns:41% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/81xtO1gAaPL-682x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-761\" srcset=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/81xtO1gAaPL-682x1024.jpg 682w, https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/81xtO1gAaPL-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/81xtO1gAaPL-768x1153.jpg 768w, https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/81xtO1gAaPL-1023x1536.jpg 1023w, https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/81xtO1gAaPL-1364x2048.jpg 1364w, https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-content\/uploads\/sites\/191\/2021\/10\/81xtO1gAaPL.jpg 1705w\" sizes=\"auto, (max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-medium-font-size\"> &nbsp;O trabalho de Willett n\u00e3o apenas esclarece os contextos ecol\u00f3gicos e sociais da cria\u00e7\u00e3o est\u00e9tica&nbsp;africana&nbsp;como tamb\u00e9m faz leituras altamente precisas de sua linguagem, suas estruturas seus estilos. De uma parte, mostra-nos, por exemplo, a rela\u00e7\u00e3o entre floresta, tipos de madeira, sociedade sedent\u00e1ria e produ\u00e7\u00e3o escult\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Capa da obra  <\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">No cap\u00edtulo 2, intitulado \u201cO\ndesenvolvimento do estudo da arte africana\u201d, aqui analisado, Willett apresenta\numa cr\u00edtica aos diversos estudos que abordavam a arte africana de acordo com a\nperspectiva euroc\u00eantrica que reproduzia, ainda, uma no\u00e7\u00e3o de arte \u201cprimitiva\u201d,\nse contrapondo a diversas descobertas no campo da arqueologia. Nesta se\u00e7\u00e3o, o\nautor demonstra, brilhantemente, que a sofistica\u00e7\u00e3o presente na arte africana\nn\u00e3o se trata-se de um esmero acidental, nem se encontra desconectada das ideias\ne pr\u00e1ticas das popula\u00e7\u00f5es africanas contempor\u00e2neas como sugeriram diversos\npesquisadores europeus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Na p\u00e1gina 40, por exemplo, &nbsp;o autor discute o termo primitivo, o qual\nsegundo ele, &nbsp;o termo \u201carte primitiva\u201d tal\ncomo ficou conhecido \u00e9 um legado dos antrop\u00f3logos do s\u00e9culo 19 que viam a\nEuropa da \u00e9poca como \u00e1pice da evolu\u00e7\u00e3o social, por isto, o mais correto seria\ndizer correto seria dizer arte <em>africana tradicional<\/em> ou <em>arte\ntradicional africana<\/em> segundo ele o termo primitivo refere-se a uma\ndefini\u00e7\u00e3o etnoc\u00eantrica que, n\u00e3o cabe em nossos dias tendo em vista que j\u00e1 carrega\nem si, uma hierarquia que coloca a produ\u00e7\u00e3o africana em escala de\ninferioriza\u00e7\u00e3o e preconceito. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Segundo ele, a forma mais antiga de\narte que conhecemos \u00e9 a rupestre n\u00e3o pl\u00e1stica ou seja pinturas entalhadas em\nsuperf\u00edcies de pedras lisas, as quais ainda, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, tenham\nparecido menos &nbsp;importantes que a\nescultura, embora os avan\u00e7os mais estimulantes na arte africana contempor\u00e2nea ainda\nencontram-se na pintura e nas artes gr\u00e1ficas, e n\u00e3o na escultura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">A partir da p\u00e1gina 40 ele come\u00e7a\na tra\u00e7ar o desenvolvimento da hist\u00f3ria da Arte Africana. Ele ressalta que a\nprimeira descoberta das pinturas rupestres da idade da pedra, na Europa, foi\nfeita em Altamira no ano de 1878, mas n\u00e3o foi sen\u00e3o na primeira d\u00e9cada do\ns\u00e9culo 20 que sua antiguidade foi amplamente reconhecida. Um dos primeiros\nautores foi Gottfried Semper, que escreveu o livro o <em>Estilo nas artes\nt\u00e9cnicas e tect\u00f4nicas<\/em>, ou est\u00e9tica pr\u00e1tica que surgiu no in\u00edcio dos anos\n1860. &nbsp;Arquiteto, Semper estava\ninteressado principalmente nas formas arquitet\u00f4nicas sua premissa era de que\numa vez que a primeira necessidade do ser humano era prote\u00e7\u00e3o para si e para a\nsua fogueira ele passou a tran\u00e7ar gram\u00edneas para proteg\u00ea-las do vento. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Semper passou a desenvolver a ideia de que o homem teria desenvolvido a t\u00e9cnica do entrela\u00e7amento produzido um padr\u00e3o que o levou ao desenvolvimento das t\u00e9cnicas e d\u00e1 de tecelagem. Essa linha de racioc\u00ednio que se baseava na ideia da busca deliberada de padr\u00f5es foi convertida pelos disc\u00edpulos de Semper em um sistema determinista e materialista usado para explicar todas as formas art\u00edsticas n\u00e3o ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Willett acredita, e eu concordo, que este pensamento seja fr\u00e1gil demais, pois, segundo o que ele mesmo diz, Semper e seus seguidores n\u00e3o possu\u00edam dados que sustentassem a esta hip\u00f3tese. Seguindo neste desenvolvimento da Arte Africana constru\u00edda por Willet, ele nos apresenta em seguida Max Schmidt, etn\u00f3logo que publicou seus estudos ind\u00edgenas no Brasil central em 1905 nos quais demonstrou como os motivos desenvolvidos nas t\u00e9cnicas de entrela\u00e7amento foram aplicados na decora\u00e7\u00e3o das cer\u00e2micas. No entanto, segundo Willett, Schmidt, claramente, montou os dados para adapt\u00e1-los \u00e0 hip\u00f3tese de Semper, ao inv\u00e9s de construir hip\u00f3teses que se adequassem aos dados. &nbsp;Smith ignorou por exemplo os motivos espirais e as linhas ondulantes que, embora geom\u00e9tricos, dificilmente teriam sido produzidos atrav\u00e9s do entrela\u00e7amento em linha reta. &nbsp;Esse teria sido que podemos chamar de uma fase marxista da hist\u00f3ria da arte africana. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Segundo Willett, esses primeiros estudos estavam preocupados exclusivamente nos of\u00edcios. Willhen Worringer, historiador e te\u00f3rico da arte alem\u00e3, publicou um estudo te\u00f3rico filos\u00f3fico em 1908 em que rejeitou essa base tecnol\u00f3gica de origem da arte. &nbsp;Para Worringer toda a arte era basicamente uma express\u00e3o da voli\u00e7\u00e3o, embora, muitas vezes, esta pudesse modificada pelo seu prop\u00f3sito. Ele era um evolucionista e estava convicto de que as primeiras formas art\u00edsticas de formas geom\u00e9tricas que conduziram de modo l\u00f3gico inevit\u00e1vel ao naturalismo, portanto ele rejeitava que as pinturas figurativas rupestres do sul da Fran\u00e7a fossem obras de arte, e &nbsp;repudiava &#8220;os feitos art\u00edsticos&#8221; dos africanos nativos &#8220;e da maioria dos povos primitivos&#8221;, excetuando-se apenas aqueles que exerciam dons ornamentais<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">O estudo do ornamento tomou uma\nnova dire\u00e7\u00e3o com os trabalhos do antrop\u00f3logo Franz Boas que publicou a obra\n&#8220;um estudo sobre a arte decorativa dos \u00edndios da Costa Norte do pac\u00edfico\nda Am\u00e9rica do Norte&#8221;, publicado em 1897 e mais tarde inclu\u00eddo em seu livro\n&#8220;arte primitiva&#8221; de 1927. Nunca \u00e9 de mais lembrar, embora o autor n\u00e3o\ncite, Franz Boas vai alterar n\u00e3o apenas o curso da Hist\u00f3ria da Arte Africana,\ncomo vida de um outro jovem soci\u00f3logo em visita aos Estados Unidos, Gilberto\nFreyre. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Nessa obra, &nbsp;Boas demoliu a teoria da degenera\u00e7\u00e3o; sua obra\nse referia mais ao ornamento do que \u00e0s culturas. &nbsp;Boas acreditava que a arte n\u00e3o poderia existir\nantes que o artista desenvolvesse per\u00edcia suficiente para dominar o seu\nmaterial e assinalava tamb\u00e9m que, embora a forma, assimetria e o ritmo, no\nconjunto, tenham um efeito est\u00e9tico em si mesmo, a forma tamb\u00e9m poderia\ntransmitir sentidos, o qu\u00ea acrescentaria um valor emocional acentuando-se o\nefeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Sensacional, e inovador para \u00e9poca,\npois o africano poderia ser visto agora como uma pessoa, pois apenas pessoas\ns\u00e3o capazes de transmitir a emo\u00e7\u00e3o, possuem alma, algo impensado dentro da l\u00f3gica\ndeterminista e evolucionista vigente no s\u00e9culo anterior. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Boas dividia a arte em duas categorias: arte representativa, hoje conhecida como representacional; e simbolismo, anteriormente conhecida como geom\u00e9trica. Para ele, na arte representativa: forma e conte\u00fado s\u00e3o igualmente importantes, enquanto na arte simb\u00f3lica o conte\u00fado \u00e9 muito mais importante que a forma. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\"><strong>Tais estudos levaram \u00e0 conclus\u00e3o important\u00edssima, a de que a mesma forma pode transmitir distintos significados em diferentes sociedades<\/strong>,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">ou seja, forma e conte\u00fado n\u00e3o podem ser considerados separadamente em estudos de desenvolvimento ao longo do tempo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Mas um outro cl\u00e1ssico, de maior\nalcance do que os j\u00e1 citados, por situar os problemas da arte e da decora\u00e7\u00e3o no\ncontexto mais amplo da cultura material, foi o trabalho do antrop\u00f3logo R. U.\nSayce. Em seu livro <em>Artes e of\u00edcios primitivos<\/em> ele, de maneira ampla e\ncritica, baseado em estudos anteriores, fez men\u00e7\u00f5es cautelosas sobretudo \u00e0\nconverg\u00eancia de desenhos para os clientes de fontes totalmente distintas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Como caracter\u00edstica geral desse\nprimeiro momento, al\u00e9m de podemos citar o forte apelo marxista \u00e9 o de\nconcordarmos com o fato de que as t\u00e9cnicas de tecelagem, seja em esteiras ou\ncestos, tendem a produzir motivos de car\u00e1ter geom\u00e9tricos, o que podemos chamar\nde \u201ctecnomorfos\u201d, ou seja, a forma que derivada da t\u00e9cnica. Portanto \u00e9 prov\u00e1vel\nque qualquer sociedade tenha desenvolvido seus pr\u00f3prios \u201ctecnomorfos\u201d, ou seja,\nas diversas manifesta\u00e7\u00f5es de tecnologia em uma dada sociedade. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;como existe uma forte possibilidade que tais motivos tenham uma origem independente dentro da sociedade, s\u00e3o inadequados como indicadores da influ\u00eancia de uma sociedade sobre a outra&#8221; <\/p><cite> (Frank; 2017, P. 43).  <\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">O estudo da escultura como algo\ndistinto do ornamento come\u00e7ou nos \u00faltimos anos do s\u00e9culo 19 quando a maior\nparte da literatura seguia uma das duas abordagens, a <strong>etnol\u00f3gica<\/strong>,\nsimilar a de Franz boas ao considerar que o conhecimento do conte\u00fado de uma\nobra de arte \u00e9 fundamental para sua compreens\u00e3o e at\u00e9 para sua aprecia\u00e7\u00e3o, e a\nno\u00e7\u00e3o <strong>est\u00e9tica<\/strong>, que acreditava que tal conhecimento era desnecess\u00e1rio\npara sua aprecia\u00e7\u00e3o. Segundo Frank as duas escolas t\u00eam se aproximado\ngradualmente, antrop\u00f3logos vem prestando aten\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da arte, e os\ncr\u00edticos de arte tem prestado mais aten\u00e7\u00e3o ao contexto cultural da arte\nafricana &#8220;afinal, dificilmente seria poss\u00edvel separar a forma do conte\u00fado\nem sociedades nas quais o artista \u00e9 um membro integrante da comunidade, n\u00e3o um\nindiv\u00edduo empenhado em expressar uma vis\u00e3o puramente pessoal.&#8221; (P\u00e1gina 45,\n46)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">Segundo Frank os antrop\u00f3logos a\nprinc\u00edpio, tratavam as culturas apenas com um elemento religioso, mas com o\ntempo passaram anotar a diverg\u00eancia das propor\u00e7\u00f5es naturais reveladas nas\npe\u00e7as. Um destes primeiros antrop\u00f3logos foi L\u00e9o Frobenius que em 1896 escreveu\nsobre a arte dos povos n\u00e3o europeus sugerindo que estes possu\u00edam o impulso de\ncopiar formas naturais e que tais c\u00f3pias transmitiam ideias e significado, ou\nseja, que seu conte\u00fado conferia significado a forma. Essas rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o\nculturalmente determinadas, por isso a forma tem aquele significado apenas para\na sociedade a qual pertence. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">&#8220;Mas foi somente entre 1904\ne 1905 que a arte africana come\u00e7ou a produzir o impacto significativo&#8221; (P\u00e1gina\n47.) Foi quando Derain comprou uma pe\u00e7a africana e &nbsp;mostrou-a a Picasso e Matisse que tamb\u00e9m\nficaram bastante impressionados com ela. A revolu\u00e7\u00e3o da Arte do s\u00e9culo XX\nestava em curso ali, <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">&nbsp;O autor, ent\u00e3o, passa a\ndescrever o impacto da arte africana sobre os trabalhos de artistas europeus\ncomo: Andr\u00e9 Derain, Henri Matisse, Georges Braque, Pablo Picasso e Juan Gris. Ao\nfinal, ele alerta para o fato de que mesmo quando artistas e pesquisadores\neuropeus e norte-americanos abordaram a arte africana com benevol\u00eancia, ainda assim\nestavam imbu\u00eddos de pensamentos etnoc\u00eantricos que n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o os\nprop\u00f3sitos das comunidades e dos indiv\u00edduos africanos que produziram as obras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Por tanto, o trabalho de Willett,\nsobretudo neste capitulo aponta para para o fato de que, mesmo quando artistas\ne pesquisadores europeus e norte-americanos, tratam &nbsp;a arte africana com afei\u00e7\u00e3o, isto n\u00e3o quer\ndizer que estejam livres de prejulgamentos etnoc\u00eantricos que, por sua vez,\ndesconsideram os prop\u00f3sitos das comunidades e dos indiv\u00edduos africanos que\nproduziram as obras, ou seja, o meio social em que a obra foi produzida. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size\">A obra de Frank Willet nos ajuda a pensar como o preconceito estava presente no inicio da Hist\u00f3ria da Arte, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do continente africano, e como tal pensamento permaneceu mesmo durante o s\u00e9culo 20, em confronto com estudos etnol\u00f3gicos que procuraram vencer tais amarras e libertar as amarras que prendiam o espirito criativo africano ao conceito de primitivo e usual. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica:<\/h2>\n\n\n\n<p>Fiorotti, Silas. A sofistica\u00e7\u00e3o\nda arte africana n\u00e3o \u00e9 mero acidente. Revista A P\u00e1tria, 13\/03\/2021.&nbsp; Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/apatria.org\/cultura\/a-sofisticacao-da-arte-africana-nao-e-mero-acidente\/\">https:\/\/apatria.org\/cultura\/a-sofisticacao-da-arte-africana-nao-e-mero-acidente\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Willett, F.&nbsp;<em>African\nArt.&nbsp;<\/em>3.ed. London: Thames &amp; Hudson, 2003. [Edi\u00e7\u00e3o\nbrasileira: Edi\u00e7\u00f5es Sesc \/ Imprensa Oficial, 2017.] <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p>Einstein, C.&nbsp;<em>Negerplastik\n[Escultura negra]<\/em>. Florian\u00f3polis: Edufsc, 2011 [1915];<br>\nMunanga, K.&nbsp;<em>A dimens\u00e3o est\u00e9tica na arte negro-africana\ntradicional.&nbsp;<\/em>In: P\u00e1gina do MAC-USP, S\u00e3o Paulo, 07\/6\/2006.;<\/p>\n\n\n\n<p>O\u2019Neill, E.; Conduru, R. (orgs.).&nbsp;<em>Carl Einstein e a arte da \u00c1frica.&nbsp;<\/em>Rio de Janeiro: Eduerj, 2015.<br> Price, S.&nbsp;<em>Arte primitiva em centros civilizados.<\/em>&nbsp;Rio de Janeiro: Edufrj, 2000.<\/p>\n\n\n<ul class=\"wp-block-latest-posts__list wp-block-latest-posts\"><li><a class=\"wp-block-latest-posts__post-title\" href=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2025\/12\/21\/9o-congresso-pan-africano-em-lome-togo\/\">9\u00ba Congresso Pan Africano em Lom\u00e9-Togo<\/a><\/li>\n<li><a class=\"wp-block-latest-posts__post-title\" href=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2025\/10\/07\/a-flor-da-terra-o-cemiterio-dos-pretos-novos-no-rio-de-janeiro-um-livro-sobre-o-silencio-a-memoria-e-a-humanidade-negada\/\">\u00c0 Flor da Terra: o Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos no Rio de Janeiro.  Um livro sobre o sil\u00eancio, a mem\u00f3ria e a humanidade negada<\/a><\/li>\n<li><a class=\"wp-block-latest-posts__post-title\" href=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2025\/04\/29\/o-cemiterio-dos-pretos-novos-historia-esquecimento-e-redescoberta-na-zona-portuaria-do-rio-de-janeiro\/\">O Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos: Hist\u00f3ria, Esquecimento e Redescoberta na Zona Portu\u00e1ria do Rio de Janeiro<\/a><\/li>\n<li><a class=\"wp-block-latest-posts__post-title\" href=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2025\/03\/01\/da-academia-para-a-avenida-pesquisa-de-professor-da-uff-vira-enredo-da-mangueira\/\">Da academia para a avenida: pesquisa de professor da UFF vira enredo da Mangueira<\/a><\/li>\n<li><a class=\"wp-block-latest-posts__post-title\" href=\"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2025\/02\/22\/a-flor-da-terra-enredo-da-mangueira-2025-inspira-se-na-pesquisa-de-professor-da-uff-do-campus-de-santo-anto%cc%82nio-de-padua-2\/\">A\u0300 Flor da Terra: Enredo da Mangueira 2025 inspira-se na pesquisa de Professor da UFF do Campus de Santo Anto\u0302nio de Pa\u0301dua<\/a><\/li>\n<\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste breve artigo, farei um breve resumo da obra, para aqueles que quiserem conhecer mais o trabalho deixando minhas impress\u00f5es e coment\u00e1rios, que poder\u00e3o ser uteis aqueles de alguma forma, como algum tipo de apontamento. <\/p>\n","protected":false},"author":209,"featured_media":758,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[11,10,200,59,22,2,137,18,21,27,1,204],"tags":[80,158,201,248,249,250,202,247],"class_list":["post-755","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa-antiga","category-antropologia","category-arte-africana","category-enem","category-escravidao-historia","category-historia","category-historia-contemporanea","category-negritude","category-negritude-historia","category-projeto-de-extensao","category-sem-categoria","category-vestibular","tag-africa","tag-africa-berco-da-humanidade","tag-arte-africana","tag-arte-rupestre","tag-figura","tag-figura-rupestre","tag-frank-willett","tag-historia-da-arte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/users\/209"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=755"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":790,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755\/revisions\/790"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/media\/758"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}