{"id":863,"date":"2023-12-04T17:50:36","date_gmt":"2023-12-04T20:50:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/?p=863"},"modified":"2023-12-04T17:50:36","modified_gmt":"2023-12-04T20:50:36","slug":"medicos-ou-monstros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2023\/12\/04\/medicos-ou-monstros\/","title":{"rendered":"M\u00e9dicos ou monstros?"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSomos chegados ao maior flagelo que eu dizia dos moradores destas Minas, enfermidade em que, certamente, se enganam todos os principiantes neste clima, assim cirurgi\u00f5es como m\u00e9dicos, porque, fazendo o que estudaram e os autores ensinaram, nenhum efeito v\u00eaem da sua dilig\u00eancia ou, se o chegam a ver em um enfermo, o n\u00e3o v\u00eaem em um cento. Falo como experimentado e como quem tamb\u00e9m se enganou, e, achando-me mui triste naquele princ\u00edpio, vendo que esta doen\u00e7a era muito comum e que morriam tantos escravos e se perdia tanto ouro em poucos dias\u201d, anotou, em 1735, Lu\u00eds Gomes Ferreira no seu Er\u00e1rio mineral, anota\u00e7\u00f5es feitas por ele sobre doen\u00e7as vivenciadas ou observadas nas Minas Gerais no s\u00e9culo 18. Ferreira era um dos muitos cirurgi\u00f5es ou \u201cm\u00e9dicos pr\u00e1ticos\u201d que trabalhavam no Brasil e cuja forma\u00e7\u00e3o fora adquirida na labuta di\u00e1ria com os doentes. Ao contr\u00e1rio dos m\u00e9dicos, em n\u00famero muito inferior e mais respeitados por sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica europ\u00e9ia, pr\u00e1ticos como Ferreira lidavam com o cotidiano das enfermidades coloniais, \u201cexperimentando\u201d e, muitas vezes, \u201cenganando-se\u201d. Quando isso ocorria, ficavam \u201cmui tristes\u201d. Afinal, escravo morto era ouro perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, os cirurgi\u00f5es foram amplamente empregados no Brasil, utilizando muito do conhecimento tradicional da medicina de diferentes comunidades (negros, bandeirantes etc.), mesclando-o com os conhecimentos da medicina ocidental. \u201cDo exotismo das doen\u00e7as existentes nas travessias e conquistas, da necessidade de improvisar terap\u00eauticas e rem\u00e9dios, da car\u00eancia de f\u00edsicos nas novas terras e do vasto experimentalismo dos cirurgi\u00f5es resultaram guias para a pr\u00e1tica m\u00e9dica valorizados no reino e na col\u00f4nia, como foi o Er\u00e1rio mineral\u201d, explica Maria Cristina Cortez Wissenbach, que, em sua tese de doutorado, Mat\u00e9ria m\u00e9dica, escravid\u00e3o e tr\u00e1fico no Brasil, apoiada pela FAPESP, analisou os chamados manuais de medicina pr\u00e1tica. Esses, se a princ\u00edpio eram destinados ao tratamento de escravos, que serviam de \u201ccobaias\u201d, mais tarde foram usados para tratar do resto da popula\u00e7\u00e3o. Inusitadamente, a medicina nacional est\u00e1 em d\u00e9bito com essa pouco altru\u00edsta preocupa\u00e7\u00e3o em manter os escravos vivos para o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Pior: esses cirurgi\u00f5es igualmente contribu\u00edram para a otimiza\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico escravista, escolhendo os melhores indiv\u00edduos e cuidando dos muitos que adoeciam na viagem da \u00c1frica ao Brasil. \u201cBoa parte da medicina tropical nasceu a bordo dos navios negreiros\u201d, afirma Cristina. Ber\u00e7o pouco nobre. Mas necess\u00e1rio num mundo movido pela escravid\u00e3o. Afinal, numa travessia de 60 dias, era comum que mais da metade dos 500 a 800 negros amontoados nos por\u00f5es morresse de var\u00edola e, mesmo sob a supervis\u00e3o dos cirurgi\u00f5es, a mortalidade nos navios girava em torno de 10 a 20%. \u201cMas, ao cuidar de uma das fases mais importantes da comercializa\u00e7\u00e3o dos escravos, os cirurgi\u00f5es tornavam-se agudos observadores das qualidades e dos defeitos f\u00edsicos, das evid\u00eancias de idade, dos sintomas das doen\u00e7as ou das predisposi\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas, que muitas vezes os mercadores procuravam esconder\u201d, diz a historiadora. Por\u00e9m, vale ressaltar, essa preocupa\u00e7\u00e3o em conhecer as doen\u00e7as dos negros era mais voltada ao mercado do que ao lado humano. Cada perda significava a diminui\u00e7\u00e3o do lucro. Assim na terra como no mar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEra mais barato explorar o escravo ao m\u00e1ximo e substitu\u00ed-lo quando estivesse doente\u201d, explica a historiadora. Os cirurgi\u00f5es usavam o conhecimento adquirido na pr\u00e1tica para, participantes ativos do com\u00e9rcio negreiro, agregar valor \u00e0s chamadas \u201cpe\u00e7as\u201d rejeitadas. \u201cObservei mais em aquele pa\u00eds, que homens havia de poucas posses, que se empregavam em comprar o remanescente da escravatura, a que j\u00e1 o Comiss\u00e1rio n\u00e3o tinha comprador (\u2026), levando-o para casa, medicando-o, e dando-lhe o sustento, e o vestu\u00e1rio preciso, e fazendo-o mudar de ares; convalescendo a mesma escravatura desprezada, dentro de pouco tempo a revendiam como s\u00e3, robusta e forte por muito bom pre\u00e7o: e que neste tr\u00e1fico continuavam, entregando-se a um novo g\u00eanero de ind\u00fastria\u201d, relatou Lu\u00eds Ant\u00f4nio de Oliveira Mendes, em texto escrito \u00e0 Academia Real das Ci\u00eancias em Lisboa, em fins do s\u00e9culo 18.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses expedientes davam aos cirurgi\u00f5es a chance de elevar seus rendimentos, j\u00e1 que, muitas vezes, eram o \u00fanico meio de aliviar a dor dos doentes, dada a escassez de m\u00e9dicos formados na Europa. \u201cUma vez estabelecidos, esses pr\u00e1ticos se transformavam em senhores de engenho, comerciantes abastados ou mascates, donos de lavras e o exerc\u00edcio das fun\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 sa\u00fade aparece, muitas vezes, de forma circunstancial, possivelmente como imposi\u00e7\u00e3o de uma sociedade carente que demandava seus servi\u00e7os\u201d, esclarece a pesquisadora. A ajudar ainda mais seu enriquecimento havia o acesso dif\u00edcil aos medicamentos na col\u00f4nia, o que levou o Brasil a absorver facilmente a m\u00e3o-de-obra dos pr\u00e1ticos da sa\u00fade, j\u00e1 que eles atendiam as demandas e assimilavam os conhecimentos locais. Aos poucos, produtos europeus e orientais da medicina tradicional foram substitu\u00eddos por outros da farmacop\u00e9ia local. Uma caracter\u00edstica comum entre eles \u00e9 a pouca distin\u00e7\u00e3o que havia entre o conhecimento cient\u00edfico e popular, um mosaico de ensinamentos da medicina popular ib\u00e9rica, ind\u00edgena, africana, de sertanejos paulistas e jesu\u00edtas.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora, afirma a historiadora, seja imposs\u00edvel dimensionar a propor\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dicos e cirurgi\u00f5es existentes no pa\u00eds, entre os s\u00e9culos 17 e 18, alguns relatos indicam que havia apenas tr\u00eas cirurgi\u00f5es para 30 mil pessoas que habitavam Recife no in\u00edcio de 1700, ou n\u00e3o mais que dois m\u00e9dicos e sete cirurgi\u00f5es em Bel\u00e9m j\u00e1 no final do mesmo s\u00e9culo para uma popula\u00e7\u00e3o de 11 mil. Nas fazendas, no entanto, os escritos dos cirurgi\u00f5es tinham lugar reservado nas estantes, como era o caso do tratado de Jos\u00e9 Antonio Mendes, de 1770, Governo de mineiros mui necess\u00e1rio para os que vivem distantes de professores seis, oito, dez ou mais l\u00e9goas, ou mais tarde, j\u00e1 no s\u00e9culo 19, o Diccionario de medicina popular e das sciencias acess\u00f3rias para uso das fam\u00edlias contendo a descri\u00e7\u00e3o das causas, symtomas e tratamento das mol\u00e9stias; as receitas para cada mol\u00e9stia (1842), de Pedro Lu\u00eds Chernoviz. Da pena desses pr\u00e1ticos surgiram, fruto da experimenta\u00e7\u00e3o no calor da hora, os guias para as novas gera\u00e7\u00f5es de homens da sa\u00fade. A despeito de sua origem mais do que pragm\u00e1tica, essas publica\u00e7\u00f5es acabaram por se transformar na base da medicina tropical e suas observa\u00e7\u00f5es, enriquecidas com o tr\u00e2nsito de cirurgi\u00f5es por Angola, Costa da Mina, Caribe e Brasil, permitiram uma intensa circula\u00e7\u00e3o de conhecimentos, receitas e terap\u00eauticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta lembrar que, ao relatar que o escorbuto era fruto de uma car\u00eancia de vitamina C, os manuais ensinaram comandantes de negreiros a se abastecer com verduras e sucos de frutas c\u00edtricas para evitar a doen\u00e7a. Mas n\u00e3o apenas a eles: o mundo colonial p\u00f4de se expandir em suas fronteiras mar\u00edtimas, beneficiado por esse conhecimento. Um saber que, em pouco tempo, foi enriquecido por outras experi\u00eancias semelhantes, feitas em outras partes do globo. A pesquisadora, na compara\u00e7\u00e3o entre as v\u00e1rias obras analisadas em sua tese, observou inflex\u00f5es no conhecimento m\u00e9dico que, se at\u00e9 a primeira metade do s\u00e9culo 18 limitava-se \u00e0s experi\u00eancias portuguesas e luso-brasileiras, a partir das \u00faltimas d\u00e9cadas daquele s\u00e9culo passou a absorver tamb\u00e9m o conhecimento sobre as doen\u00e7as das demais \u00e1reas coloniais. O c\u00edrculo vicioso, com o tempo e o fim da escravid\u00e3o, transformou-se em virtuoso, salvando vidas, n\u00e3o importando a cor da pele. A medicina superava o pragmatismo dos lucros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O projeto<br> <\/strong>Mat\u00e9ria m\u00e9dica, escravid\u00e3o e tr\u00e1fico no Brasil (1683-1850) (<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/39806\/materia-medica-escravidao-e-trafico-no-brasil-1683-1850\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">n\u00ba 99\/03869-9<\/a>);&nbsp;<strong>Modalidade&nbsp;<\/strong>Bolsa de P\u00f3s-doutorado;&nbsp;<strong>Supervis\u00e3o<br> <\/strong>Silvia Lara \u2013 Departamento de Hist\u00f3ria\/Unicamp;&nbsp;<strong>Investimento&nbsp;<\/strong>R$ 65.160,00 (FAPESP)<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto foi originalmente publicado por <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/\">Pesquisa FAPESP<\/a> de acordo com a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\"> licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND<\/a>. Leia o <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/medicos-ou-monstros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">original aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSomos chegados ao maior flagelo que eu dizia dos moradores destas Minas, enfermidade em que, certamente, se enganam todos os principiantes neste clima, assim cirurgi\u00f5es como m\u00e9dicos, porque, fazendo o que estudaram e os autores ensinaram, nenhum efeito v\u00eaem da sua dilig\u00eancia ou, se o chegam a ver em um enfermo, o n\u00e3o v\u00eaem em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":209,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-863","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/users\/209"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=863"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/863\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":864,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/863\/revisions\/864"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}