{"id":904,"date":"2025-10-07T23:44:05","date_gmt":"2025-10-08T02:44:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/?p=904"},"modified":"2025-10-07T23:44:05","modified_gmt":"2025-10-08T02:44:05","slug":"a-flor-da-terra-o-cemiterio-dos-pretos-novos-no-rio-de-janeiro-um-livro-sobre-o-silencio-a-memoria-e-a-humanidade-negada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.professores.uff.br\/juliocesarmedeiros\/2025\/10\/07\/a-flor-da-terra-o-cemiterio-dos-pretos-novos-no-rio-de-janeiro-um-livro-sobre-o-silencio-a-memoria-e-a-humanidade-negada\/","title":{"rendered":"\u00c0 Flor da Terra: o Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos no Rio de Janeiro.  Um livro sobre o sil\u00eancio, a mem\u00f3ria e a humanidade negada"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Prof. Dr. J\u00falio C\u00e9sar Medeiros da Silva Pereira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando escrevi <em>\u00c0 Flor da Terra<\/em>, eu n\u00e3o imaginava que aquele trabalho \u2014 nascido de uma pesquisa de mestrado, orientada pelo professor Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro \u2014 se tornaria parte da mem\u00f3ria p\u00fablica da cidade. O livro nasceu de uma inquieta\u00e7\u00e3o profunda: o que diz de n\u00f3s uma sociedade que enterra seus mortos \u00e0s pressas e tenta apagar seus rastros?<\/p>\n\n\n\n<p>O Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos, localizado na Gamboa, era mais que um espa\u00e7o de sepultamento. Era o espelho de uma cidade que crescia sobre corpos africanos. Ali, entre o final do s\u00e9culo XVIII e as primeiras d\u00e9cadas do XIX, foram lan\u00e7ados milhares de homens, mulheres e crian\u00e7as arrancados do continente africano, v\u00edtimas do tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico e das viol\u00eancias do cativeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao pesquisar os registros de \u00f3bitos da freguesia de Santa Rita e cruz\u00e1-los com as listas de embarca\u00e7\u00f5es negreiras, percebi que n\u00e3o estava apenas lidando com n\u00fameros \u2014 mas com hist\u00f3rias interrompidas. O livro tenta dar nome e voz a esses corpos que a hist\u00f3ria oficial silenciou. Foi esse esfor\u00e7o de escuta e de restitui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que fez o trabalho receber o <strong>Pr\u00eamio Laurindo Marques<\/strong>, concedido pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, como a melhor disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o, publicada em 2007 pela Editora Garamond, nasceu desse reconhecimento. A segunda, de 2014, ampliou o di\u00e1logo entre arqueologia, sa\u00fade p\u00fablica e mem\u00f3ria. E a terceira edi\u00e7\u00e3o, publicada em 2025 pela Letra Capital, revisita esse percurso \u00e0 luz das discuss\u00f5es contempor\u00e2neas sobre racismo estrutural, necropol\u00edtica e patrim\u00f4nio afro-brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevi <em>\u00c0 Flor da Terra<\/em> com a convic\u00e7\u00e3o de que o Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos n\u00e3o \u00e9 apenas um s\u00edtio arqueol\u00f3gico, mas um <strong>lugar de consci\u00eancia<\/strong>. Ele nos obriga a encarar o que preferimos esquecer: que o Brasil foi constru\u00eddo sobre a desumaniza\u00e7\u00e3o de corpos negros, e que a cidade do Rio de Janeiro \u2014 t\u00e3o celebrada por sua beleza \u2014 ergueu-se tamb\u00e9m sobre o sofrimento de milhares de africanos an\u00f4nimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que as pessoas devem conhecer este trabalho porque ele fala de n\u00f3s. Fala da hist\u00f3ria que sustentamos com sil\u00eancio, mas tamb\u00e9m da for\u00e7a de quem resistiu. <em>\u00c0 Flor da Terra<\/em> \u00e9, antes de tudo, uma tentativa de ouvir o que os mortos ainda t\u00eam a dizer sobre o pa\u00eds que somos e o que ainda podemos ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Revisitar esse livro \u00e9 revisitar o ch\u00e3o que pisamos \u2014 e lembrar que, sob ele, h\u00e1 vidas que insistem em florescer.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><br>PEREIRA, J\u00falio C\u00e9sar Medeiros da Silva. <em>\u00c0 Flor da Terra: O Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos no Rio de Janeiro<\/em>. 3. ed. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Prof. Dr. J\u00falio C\u00e9sar Medeiros da Silva Pereira Quando escrevi \u00c0 Flor da Terra, eu n\u00e3o imaginava que aquele trabalho \u2014 nascido de uma pesquisa de mestrado, orientada pelo professor Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro \u2014 se tornaria parte da mem\u00f3ria p\u00fablica da cidade. 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