Prof. Júlio César Medeiros

PROFESSOR DE HISTÓRIA

juliocesarpereira@id.uff.br

SOBRE

Júlio César Medeiros é Dr. em História da Ciência e da Saúde pela Fiocruz.  É professor de História Contemporânea com enfase em África, da Universidade Federal Fluminense, pesquisador do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e Líder do Núcleo de Estudos e Pesquisa SANKOFA-UFF.

 

Ceuta não foi descoberta: a conquista de 1415 e o início do colonialismo português na África

Durante muito tempo, a conquista de Ceuta foi apresentada nos livros escolares como o ponto de partida das chamadas Grandes Navegações portuguesas. A narrativa tradicional costuma destacar a coragem dos navegadores, o espírito de aventura, os avanços náuticos e a expansão comercial europeia.

Essa forma de contar a História, porém, começa quase sempre no cais português e termina no convés das embarcações. Pouco se pergunta sobre a cidade africana que foi atacada, sobre as populações atingidas ou sobre as relações de poder inauguradas naquele momento.

Portugal não simplesmente “chegou” a Ceuta.

Em agosto de 1415, uma grande expedição militar portuguesa atravessou o Estreito de Gibraltar e tomou pela força uma cidade marroquina situada no norte da África. A historiografia considera esse acontecimento um momento fundador da expansão ultramarina portuguesa. (Universidade NOVA de Lisboa)

Contar essa história a partir de uma perspectiva africana exige utilizar palavras mais precisas: invasão, conquista, ocupação e colonialismo.

Ceuta já possuía uma história

Antes da chegada dos portugueses, Ceuta não era uma terra vazia, isolada ou à espera de ser incorporada ao mundo conhecido.

Localizada em uma posição estratégica no Estreito de Gibraltar, a cidade participava de redes políticas, culturais e comerciais que ligavam o Mediterrâneo, o norte da África, o mundo islâmico e as rotas vindas do interior do continente.

Sua importância não nasceu com a presença europeia. Ceuta já era um centro urbano africano, marcado pela circulação de pessoas, conhecimentos, mercadorias e tradições religiosas.

A conquista portuguesa não inaugurou a História da cidade. Ela interrompeu violentamente uma trajetória que já existia.

Quando a narrativa começa apenas em 1415, os africanos aparecem como parte da paisagem, enquanto Portugal ocupa o lugar de único sujeito histórico. Essa perspectiva reproduz uma das operações fundamentais da mentalidade colonial: apresentar o conquistador como agente da História e os povos conquistados como cenário de sua ação.

Uma conquista militar planejada

A ocupação de Ceuta não foi uma viagem improvisada.

A Coroa portuguesa mobilizou embarcações, combatentes, armamentos, recursos financeiros e uma complexa estrutura logística. Estudos sobre a campanha demonstram o planejamento estratégico e a dimensão militar da operação conduzida por D. João I. (Defesa Portugal)

Portugal desejava ampliar seu prestígio político, oferecer novas oportunidades à nobreza guerreira, ocupar uma posição estratégica no norte da África e aproximar-se das rotas comerciais ligadas ao ouro e a outros produtos que circulavam pelo continente.

A religião também desempenhou um papel importante. A guerra contra populações muçulmanas foi apresentada como prolongamento do combate cristão iniciado na Península Ibérica.

A cruz fornecia legitimidade espiritual à espada. A expansão da fé era mobilizada para justificar a conquista territorial, a apropriação de riquezas e a submissão de populações.

Aquilo que foi celebrado pela memória imperial portuguesa como glória militar significou, para os habitantes de Ceuta, guerra, perda de território, deslocamento e imposição de um poder estrangeiro.

Ceuta como início do colonialismo português

O colonialismo do século XV não possuía exatamente as mesmas estruturas administrativas, econômicas e ideológicas que caracterizariam a ocupação europeia da África nos séculos XIX e XX.

Essa diferença histórica, entretanto, não impede o uso do conceito de colonialismo para compreender Ceuta.

Na conquista de 1415 já estavam presentes elementos centrais da ação colonial:

A própria expansão portuguesa no norte da África começou com uma grande expedição militar contra Ceuta. Nas décadas seguintes, o impulso português deslocou-se também para o Atlântico e para diferentes regiões da costa africana. (Cambridge)

Ceuta pode, portanto, ser entendida como um laboratório do colonialismo português.

Ali se combinavam guerra, religião, comércio e domínio territorial. Essa lógica seria posteriormente ampliada por fortalezas, feitorias, ocupações, alianças assimétricas, captura de pessoas e participação portuguesa na constituição do tráfico atlântico de africanos escravizados.

A exploração econômica e o fracasso comercial

A monarquia portuguesa esperava que a tomada da cidade permitisse o controle de importantes circuitos comerciais.

Contudo, muitas das rotas que passavam por Ceuta foram desviadas após a conquista. A ocupação também exigia o envio contínuo de soldados, armas, alimentos e recursos.

Por isso, Ceuta não produziu imediatamente os lucros esperados e chegou a representar um custo significativo para a Coroa portuguesa.

Mas o limitado resultado econômico não elimina seu caráter colonial.

Um empreendimento colonial não precisa ser imediatamente lucrativo para ser reconhecido como tal. O essencial está na intenção de ocupar, controlar e explorar um território estrangeiro em benefício da potência conquistadora.

Mesmo quando falhou como grande centro comercial português, Ceuta manteve enorme importância estratégica e simbólica. A conquista demonstrava que Portugal estava disposto a projetar seu poder militar para além da Península Ibérica.

O mito dos “Descobrimentos”

A palavra “descobrimento” não é neutra.

Ela coloca o europeu no centro da narrativa e transforma territórios habitados em espaços que passam a existir somente quando são vistos pelos olhos dos conquistadores.

Ceuta não foi descoberta. Era conhecida, habitada, governada e integrada a redes comerciais muito antes da invasão portuguesa.

A expressão “Grandes Navegações” também pode esconder aquilo que acompanhava os navios: soldados, armas, interesses comerciais, pretensões religiosas e projetos de dominação.

Reconhecer os avanços portugueses nas técnicas de navegação e cartografia não exige apagar a violência colonial. Ao contrário, uma História rigorosa deve mostrar que ciência náutica, expansão comercial e conquista militar caminharam juntas.

Os mesmos navios que ampliaram os conhecimentos geográficos europeus também ampliaram a capacidade de conquistar territórios, interferir em sociedades africanas, capturar pessoas e controlar rotas comerciais.

A expansão marítima não foi apenas uma aventura sobre os oceanos. Foi também uma expansão do poder europeu sobre outros povos.

A fabricação de uma memória imperial

Ao longo dos séculos, a conquista de Ceuta foi reinterpretada como o começo heroico de um grande império.

Pesquisas historiográficas mostram como a tomada militar de uma cidade marroquina foi progressivamente transformada em marco glorioso da expansão portuguesa. (Acervo Digital)

Essa construção da memória não é inocente.

Ao celebrar o conquistador, ela silencia os conquistados. Ao destacar a coragem militar, esconde a violência da invasão. Ao glorificar a expansão da fé, ignora o uso da religião como justificativa para o domínio político.

Uma perspectiva decolonial não pretende simplesmente inverter a narrativa e substituir heróis por vilões. Seu objetivo é deslocar o ponto de observação.

Em vez de olhar apenas para os navios que partiram de Portugal, é necessário olhar também para as sociedades africanas que foram atingidas por eles.

De Ceuta às fronteiras do presente

A História colonial de Ceuta não pertence somente ao século XV.

Após o período de união das coroas ibéricas, a cidade permaneceu ligada à Espanha e sua soberania espanhola foi posteriormente reconhecida por Portugal. A atual fronteira entre Ceuta e Marrocos foi formada ao longo de séculos de conflitos, tratados e expansões territoriais. (Revistas UCM)

Hoje, Ceuta é uma cidade espanhola situada no continente africano e uma fronteira externa da União Europeia. Sua posição geográfica transforma o território em um dos pontos mais simbólicos das tensões migratórias entre África e Europa.

A atual crise migratória deixou dezenas de mortos, sobrecarregou os centros de acolhimento e manteve centenas de menores desacompanhados em situação de grande vulnerabilidade. (Reuters)

As cercas, os postos de controle e as tecnologias de vigilância não podem ser separados da história que produziu essa fronteira.

A cerca contemporânea está erguida sobre uma divisão territorial iniciada pela conquista europeia. Ela protege um território europeu localizado na África e controla quais corpos podem atravessar do continente africano para o espaço europeu.

Por isso, a crise não começou quando milhares de pessoas chegaram à fronteira.

Ela possui raízes nas desigualdades históricas entre África e Europa, na permanência das estruturas coloniais, na exploração econômica e na concentração das oportunidades de mobilidade, segurança e prosperidade.

Chamar a História pelo nome

Ceuta foi o começo de um projeto colonial português em território africano.

Em 1415, Portugal invadiu uma cidade, ocupou seu território pela força e iniciou uma política de expansão baseada em guerra, domínio político, interesses econômicos e imposição religiosa.

Depois de Ceuta vieram novas incursões, fortalezas, feitorias, intervenções nas sociedades africanas e a ampliação do tráfico de seres humanos.

Contar esse acontecimento apenas como o início das Grandes Navegações significa repetir a memória produzida pelos conquistadores.

Uma leitura decolonial exige que a História seja observada também a partir daqueles que sofreram a conquista.

Ceuta não foi descoberta.

Foi invadida, ocupada e transformada em instrumento de um projeto de poder europeu.

A memória imperial chamou esse processo de expansão.

A História vista a partir da África precisa chamá-lo pelo nome: colonialismo.


Assista ao vídeo

O tema também foi desenvolvido em vídeo no canal História Mais:

Ceuta, 1415: o início do colonialismo português na África

Ceuta: O que é esse território espanhol na África?

Uncover a realm of opportunities.

Exploring life’s complex tapestry, options reveal routes to the exceptional, requiring innovation, inquisitiveness, and bravery for a deeply satisfying voyage.

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